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    Daltonismo psicológico e flores negras espalhadas pela casa

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    Lume

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    Daltonismo psicológico e flores negras espalhadas pela casa

    Mensagem por Lume em Dom Maio 05, 2013 9:17 am

    Mostra a cara, Maurício. Mostra a cara porque aqui nesse quarto escuro, ainda que não possa te ver, quero que teus olhos sondem a escuridão tentando encontrar os meus. Quero que tuas mãos parem em minha cintura fina apenas para tentar estancar o sangue que continua escorrendo do corte no centro do umbigo. Maurício, que no próprio nome já me diz que não sabe encontrar bondade, quem sabe não poderia tentar me encontrar no meio do sono? Por que não me acorda quando eu insisto em dormir no meio do teu discurso das duas da manhã?

    Mostra a cara, Maurício, porque meu indicador ainda está com um enorme espinho de rosa fincado debaixo da unha. Está rasgando a carne enquanto você se preocupa com o cheiro dos teus cabelos impregnado no travesseiro e se deveria mudar de xampu. A morte vem chegando devagarinho até mim e você está olhando para o outro lado, Maurício. Meu bem, se meus pés estão frios e tocando em tuas pernas para tentar se esquentar, por que saltas na cama chorando de susto, se sabes que apenas eu durmo contigo? Por que te assustas com meus olhos incendiados de pavor ao descobrir que ainda tens medo dos monstros debaixo da cama? Se estás tão assustado comigo mesma, por que não me mostra a cara e me diz que tem medo?

    Por que continuas mascarando, Maurício, o bem que eu tentei te fazer ao cortar tuas unhas? Se tua vontade era me arranhar as costas, por que não usa os dentes? Se meus arrepios te incomodam, por que não me abraças para me saciar do desejo incontrolável que tenho de ti? Se meus cabelos compridos te incomodam, por que não pegas a tesoura e os corta? Por que, Maurício, por que não me mostra a cara?

    Maurício... As rosas vermelhas estão espalhadas pela casa desde que você me pediu que fizesse um buquê. Pediu se eu poderia colorir a casa, mas não reclamou quando viu meu negro virando o colorido. Maurício, se teu daltonismo transforma vermelho em negro, o que não imagino ser possível, qual a cor de meus olhos para ti? Será que nessa escuridão desse quarto não faria diferença se olhasses a parede, o teto ou meus olhos? Me responda, Maurício... Será que mesmo assim não valeria a pena sentir meu olhar sobre teus lábios? Implorando por um beijo ao invés de tuas facadas constantes? Sabe, Maurício, teu daltonismo psicológico me incomoda. Se a escuridão pra ti não faz diferença, por que para mim deveria? Por que eu devo segurar tuas mãos se meu umbigo sangra e meus olhos reviram de dor ao me perder de ti no meio dessa noite escura? Se as cortinas continuam fechadas e a tua asma começa a atacar no meio da madrugada, por que eu deveria chorar de dor ao te ver partir? Se tuas facadas acabam ligeiramente após teu momento de lucidez esbranquiçada ao ver que por entre as pernas o sangue do umbigo vai escorrendo e me matando aos poucos? Me lavando de vermelho, mas o vermelho, Maurício, tu não consegues ver. E se no negro psicológico do sangue que escorre de mim tu te sentes perdido, minha morte não se transforma em algo ruim. Mas, se tu te achares em minha morte, aí sim eu poderia chorar de dor e de tristeza ao te ver largar a faca e chorar. Tuas lágrimas são preciosas demais para serem gastas por minha causa.

    Mas, Maurício, se tuas lágrimas forem o que poderiam te lavar e te curar do daltonismo que tua cabeça criou dentro de ti, talvez eu possa morrer feliz. Talvez se fossem preciso algumas facadas em meu abdômem para que tua cura chegasse e tu pudesses enxergar melhor, talvez, apenas talvez, morrer não seja assim tão ruim.

    Não adianta me beijar, Maurício. A vida não é um conto de fadas e não ressuscitarei ao sentir teus lábios nos meus. Na verdade, Maurício... eu já estou morta há muito tempo.






    Bom, esse texto foi o primeiro de uma série de contos baseados em Maurício, uma personagem que... é bastante complicada, embora eu o ame. Escrevi na base de 11 contos, alguns eram cartas, outros tinham falas, outros era apenas o eu-lírico, como esse. Espero que gostem, é um dos meus mais pesados textos.

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