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    Conto: Linha 63

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    vhymathias

    Mensagens : 1
    Data de inscrição : 04/08/2014

    Conto: Linha 63

    Mensagem por vhymathias em Seg Ago 04, 2014 12:54 am

    Nem sempre o trem anda rápido. Às vezes, na escuridão da madrugada, sob os auspícios do horário especial de funcionamento, a lentidão derrama-se pelo chão sujo como um punhado de grãos de alpiste. Nessas seletas ocasiões, as lâmpadas do teto compensado piscam vagarosamente, sonolentas, torcendo para que o passageiro a entrar pela porta seja o último da noite. Os homens e mulheres sentados espaçosamente nos bancos livres acompanham a luz, permitindo-se a leseira e a pressão baixa.

    Numa dessas noites, porém, a linha 63 acabou sendo diferente. Ao contrário da usual ponderabilidade preguiçosa, o trem debatia-se e chacoalhava-se, ignorando os momentos corretos de freio, como um estômago irritado com a entrada de queijos extravagantes demais. Sávio estava lá, nessa ocasião, esperando alguma oportunidade de embebedar-se na sonolência de sempre e até, se possível, perder o ponto e gozar do silêncio cristalizante que nunca obteria em casa.

    Incomodado, porém, com a singela e singular agressividade, pôs-se a distrair-se com os outros presentes. Lambeu o vagão com os olhos, sem pressa, e anotou em si a trágica e costumeira cena da sexta de madrugada: jovens em seus celulares e óculos largos, adultos, cansados de seus empregos de horário esquisito, lendo livros de bolso e um ocasional senhor que, pelo cabelo comprido e pela barba presa, imortalizava nas entranhas do trem a sua rejuvenescência.

    Sávio, então, como se frente a frente com um longo cardápio, escolheu uma moça para espiar. Alta, vestindo roupas coloridas e mostrando sua pele extremamente branca, quase cinza, poderia se impor como rainha do vagão caso não estivesse fora de postura e entretida com a tela azul de seu telefone. Como, agora, num jogo de espiões, ele bisbilhotava em suas feições apenas quando ela não olhava de volta, ou reparava. Quase um furto, talvez.

    De súbito, o grito estridente dos trilhos aumentou de forma abusiva, e as lâmpadas se apagaram. A escuridão aveludada negava a luz como o silêncio entre os passageiros negava qualquer comentário ou gemido. Via-se nada, ouvia-se nada. Nem as luzes ao longe da cidade, nem o zunido do metal do vagão. Por um longo segundo, reinou o Nada por lá. Findo este segundo, porém, as luzes voltaram e os barulhos metálicos também. Permaneceu-se apenas a ausência de um ruído: o silêncio entre os presentes.

    Sávio, extremamente consternado com o pior segundo que já passara naquele trem, reparou que a moça, alvo de suas espiadelas, havia sumido. Não de sua frente, não de onde recebia os olhares, mas sim do vagão. Ela sumiu completamente, sem vestígio ou pista. Rápido demais para trocar de vagão, rápido demais para descer dele. Sumiu, impossivelmente, como a voz de quem estava lá.

    Sávio pensou em comentar algo com alguém, mas o silêncio pesava demais em seus ombros. Não conseguia abrir os lábios, como se cola industrial os trancasse. Olhava, desesperado, para um homem forte e resoluto, careca e barbudo, que continuava a ler seu livro de Kafka, um desses indivíduos em que reconhecemos naturalmente um líder. Queria, desejava, suplicava, precisava dizer algo para este homem, contar que a moça sumira. Não conseguiu.

    Dessa vez com um estalo terrível, a escuridão apareceu novamente. Sávio enfiou seus dedos entre as poltronas e segurou-se firmemente a elas, com medo de que o trem o levasse também. Sentiu que os outros retesavam-se também, apesar de ninguém quebrar o concreto silêncio. Passado um segundo, as luzes voltaram, mas o homem careca não. Sumiu também.

    Diferentemente da primeira vez, porém, não foi só Sávio que percebeu o sumiço. Um moço bem franzino e uma mulher bem loira em seus trinta anos e terno de executiva olhavam fixamente o lugar previamente ocupado pelo careca. Suas feições tremiam mais que a base do trem, e seus olhos transbordavam os gemidos inseguros que o silêncio impedia suas bocas de transmitirem.

    Num pulo, ela foi à porta do vagão e puxou-a com vigor. Não conseguiu abrir, porém. Os outros passageiros nada faziam para ajudá-la, mas torciam secretamente para que seus esforços funcionassem. Depois de diversas vezes, porém, suas sucessivas falhas deixaram de significar esperança entre seus semelhantes e tornou-se mais um elemento de desespero. O trem andava mais devagar que o normal, apesar de mais instável e displicente, e o barulho dos trancos na porta só piorava a situação.

    Depois de uns 5 ou 6 puxões da mulher, ouviu-se dentro do vagão o que pareceu ser um daqueles avisos de estação. A voz, porém, estava incompreensível. Soava como uma ameaça, delongava-se com paciência, arrastava-se como um mau agouro que carrega correntes pelo chão. Ao fim da voz, a escuridão. Ao fim do segundo de escuridão, mais um sumiço. A loira não estava mais entre eles.

    O rapaz franzino, ao perceber sua ausência, quebrou a regra instalada ali por todos e pelo trem: gritou. Gritou e socou a parede do vagão, como se o culpasse. Os outros, inclusive Sávio, permaneceram calados. O rapaz, chocado com a atitude de seus semelhantes, agachou-se no chão e passou a bater nele com uma lata vazia de refrigerante. Um homem negro e barbado virou-se para o vidro de sua janela, e tentou usar seus punhos para abrir, para si, um buraco. Os olhos de todos destilavam desespero.

    Em pouco tempo, todos lutavam com algum pedaço do vagão. Fosse com o vidro, com a porta, com o chão ou com as cadeiras, a violência despontava-se em meio ao gélido silêncio, fazendo coro à agressividade ardilosa do trem. Todos, exceto Sávio. Sávio mantinha-se sentado, olhando para os outros com decepção. Pousou os olhos em uma moça, de cabelos rosas, que chutava uma poltrona. Claramente, e nisso Sávio acertou, ela não esperava êxito ao fazê-lo, mas acreditava piamente que o fato dela violentar o vagão de alguma forma a colocava em par dos outros que tentavam uma saída, e que o Destino acabaria a recompensando por isso.

    Quando a escuridão veio novamente, levou a tal moça embora. Sávio sorriu discretamente, satisfeito, ao prever a ida dos cabelos rosa. Em sua mente pequenina, pensava “eles não entendem que não há saída, não entendem que não se discute com o trem”. “Nada desafia o poder dos trilhos, nada vence a obscuridade do vagão, grande vagão, vagão-mor, deus trem”. Sua cabeça fervilhava com elogios àquilo que o emprisionava e bem fundo em seu peito acredita que isso o livraria da escuridão.

    Conforme as abduções, ou sequestros, se assim preferir, prosseguiam, o ar ficava mais pesado e os barulhos mais constantes. Nada acontecia ao vagão senão arranhões e alguns ligeiros amassados. A destruição ocorria mesmo dentro da esperança de todos aqueles que se debatiam contra o trem, e dentro também de Sávio, que apesar de tudo fingia aceitar o destino negro trazido pelo seu deus-trem.

    Quando restaram apenas Sávio, o rapaz franzino e o homem negro no vagão, houve um olhar confirmativo entre eles para descobrir quem havia sido levado. Olhando-se, pensavam, cada um deles, sobre o porquê dos outros dois não terem sido levados. A única certeza que tinham era de que eles estavam onde deviam estar, fosse pelo esforço que julgavam fazer, fosse pela devoção ao trem.

    Ao se constatar os tremeliques das lâmpadas mais uma vez, os três fecharam os olhos. A ansiedade não conseguia dividir o espaço com o silêncio e o medo, e todos ali ficaram ligeiramente mais gordos de tantos sentimentos que portavam. O trem debateu-se nos trilhos, e por baixo das pálpebras os três perceberam que a escuridão voltara ao vagão.

    Todos tinham a plena certeza de que, por algum motivo, essa seria a última vez. Essa seria a decisão, o resultado, o fim da provação. Todos ali sabiam que o trem não seria cruel a ponto de deixar apenas um homem em uma viagem eterna, sozinho, sem saber quando seria a próxima escuridão, quando e como o levariam. Todos ali acreditavam cegamente nessa última e derradeira misericórdia de não carregar com toda essa impotência os ombros de um homem só, que dividir esse medo infindável com mais alguém era o mínimo que o Trem poderia fornecer.

    Um segundo.

    A luz voltou. Recomeçaram os estalos da lata de refrigerante contra o metal do vagão. Ecoavam sozinhos em todo o espaço. Sem socos, sem devotos, sem gritos. A lata batia no chão do vagão. Ele, franzino, batia a lata no chão do vagão. Só o trem para ouvir.

      Data/hora atual: Seg Set 24, 2018 8:24 am