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    O Toque - Crônicas do Obscuro

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    ravennakimov

    Mensagens : 3
    Data de inscrição : 17/12/2014

    O Toque - Crônicas do Obscuro

    Mensagem por ravennakimov em Qua Dez 17, 2014 3:13 pm

    Capítulo um: A mulher gentil

    O dia estava extremamente frio, o vento vinha cortante até os ossos e eu a cada minuto me sentia mais preocupada de ter deixado Suzana sair apenas com aquele casaco fininho, eu me sentia uma perfeita equilibrista com os sacos de compras quase caindo de meus braços. Suzana vinha logo atrás de mim segurando a barra de minha blusa e tremendo de frio – coitadinha está morrendo de frio – me xinguei vinte vezes de mãe desnaturada antes de voltar minha atenção para as compras que estavam caindo dos meus braços. Parei no meio do corredor e coloquei os sacos no chão exausta, entreguei a chave da casa para Suzana e pedi para ela abrir a porta para mim. Os sacos eram como sacos de pão só que um pouco mais resistentes, levei um de cada vezes para dentro de casa e quando já me preparava para carregar o ultimo ouvi um estrondo vindo da escada e corri para ver o que era.

    Um senhor de idade estava caído no chão, desci a escada aos saltos até chegar onde o senhor estava caído, me abaixei e perguntei se tudo estava bem na medida do possível, o senhor me deu um sorriso daqueles que só velhinhos dão e disse que estava tudo bem. Me senti tremendamente aliviada e o ajudei a se sentar, ele ficou encostado na parede por um tempo e depois aos poucos escorando-se em mim e na parede se levantou. Ele agradeceu a ajuda e ficou ereto e empertigado como um ator ao entrar em um personagem tamanha foi a mudança que presenciei. Me despedi do senhor com um gélido apertar de mãos e subi as escadas voltando para minhas compras, levei o ultimo saco para a cozinha e fui ver o que Suzana estava fazendo. Aparentemente a pequena abriu a porta e já foi para o quarto pintar e desenhar, algo que ela simplesmente amava fazer e passava quase todo seu tempo livre fazendo.

    O frio havia aumentado fui até meu armário e vesti um conjunto de moletom e coloquei um cachecol para proteger o pescoço, aproveitei e peguei um casaco mais quente para Suzana vestir. Depois de vestir Suzana guardei as compras na cozinha, preparei uma xícara de chá e uma bacia de pipoca e fui para a sala ler um livro. Fiquei absorta durante horas e quando dei por mim já havia passado da hora de dormir e de colocar Suzana para dormir, fui até seu quarto, mas ela já estava dormindo. Coloquei um edredom extra sobre ela, beijei sua testa, fechei a janela e desliguei a luz do abajur, antes de sair do quarto fiz uma pequena prece pela minha pequena. Desliguei as outras luzes da casa e fui para meu quarto, eu estava morrendo de frio e depois de um pouco de procura desentoquei um antigo aquecedor do tempo que eu morava em uma cidade serrana. Com o aquecedor ligado praticamente em cima de mim arrumei a cama para dormir, deitei de lado de frente para o criado mudo e fiquei olhando a foto de Bruno com Suzana em um dia no parque.

    - Ela está crescendo muito rápido – eu disse para o nada – vai se tornar uma menina tão maravilhosa.

    Fechei os olhos que marejavam e fiquei deitada toda encolhida chorando copiosamente, não passava de um leve murmúrio porque não queria acordar Suzana, mas as lágrimas desciam em cascata. Fazia um ano que Bruno havia morrido em uma tentativa de assalto em nossa casa, o bandido queria o cordão de ouro que estava no pescoço de Suzana, ela estava tão assustada que não conseguia tirar. Fui engatinhando até ela para ajudá-la. Quando um dos assaltantes viu isso veio até mim e me puxou pelos cabelos, eu comecei a gritar, mas ele me deu um soco na barriga que tirou meu ar.

    Enquanto eu arfava de quatro no chão tentando recuperar o ar ele se abaixou ao meu lado e começou a alisar meu corpo, um tremor me correu e eu alarmada não sabia o que fazer. O colega tinha acabo de fazer uma geral na casa e falava para o outro que era melhor irem embora ele apenas dizia que não tinha terminado ainda. Os olhos de Bruno brilhavam de ódio enquanto o homem alisava meu corpo com visível desejo em cada gesto e movimento seu. O comparsa se irritou e começou a puxar o homem que se virou para ele com a arma apontada para ele atirou.

    O parceiro do homem caiu no chão gritando e gemendo, Bruno segurou Suzana contra seu peito para que ela não visse, mas era tarde demais e ela chorava histérica nos braços dele. Como se nada tivesse acontecido o homem se voltou com seus olhos de predador para mim e eu sabia o que vinha a seguir e aquilo me encheu de nojo, um nojo que nunca antes havia sentido. Ele antes de vir até mim amarrou Suzana e Bruno em uma coluna que havia na sala e me arrastou pelos cabelos para a cozinha, eu chorava e me debatia frenética tentando lutar de alguma maneira, mas nada parecia funcionar.

    Já na cozinha eu tentei fugir uma vez, mas antes que conseguisse chegar a porta o homem me segurou pelos cabelos e colocou a arma dentro da minha boca me ameaçando e perguntando se eu ainda queria ver meu marido e minha filha. A partir dali eu resolvi colaborar, eu sabia que ele não pretendia me matar se eu tenta-se fugir, mas iria matar Bruno e Suzana e me deixaria viva para ver aquilo. Fechei os olhos e deixei ele me conduzir para onde quisesse, o homem me jogou violentamente contra a bancada da cozinha e com uma faca que achou ali rasgou minha camisola nas costas de fora a fora. Eu via tudo que ocorria pelo reflexo da geladeira espelhada, vendo daquela forma parecia que não era comigo, mas cada toque me fazia lembrar que era real.

    - Você esperou todo esse tempo por isso não é mesmo – afirmava o homem com sua fala embaraçada e transtornada pelo excesso de drogas e álcool. Eu nada conseguia responder e ele irritada pela minha mudez bateu com minha cabeça contra a bancada violentamente, tudo ficou preto por um tempo e logo voltou ao normal. Algo quente começou a escorrer pelo meu rosto e quando lambi que era sangue, eu havia me cortado em algum lugar quando ele bateu minha cabeça. Eu estava enjoada, só de ver meu reflexo eu queria morrer, e foi nesse momento que me veio uma ideia – se eu morder minha língua eu morro sufocada e esse puto nunca vai ter o dele – era a única forma de me vingar eu pensava.

    O homem já me penetrara e agora se movimentava violentamente me causando uma dor colossal, as lagrimas escorriam pelo meu rosto de misturando com o sangue deixando-as mais salgadas que o normal. Meus olhos estavam fechados porque eu não aguentaria ver aquilo, nem mesmo se fosse naquele reflexo embaçado da geladeira. Tentei me desligar da situação humilhante e pensar em nuvens, ou qualquer coisa que deixasse minha mente vazia para eu juntar coragem e me matar. Quando eu senti que estava pronta um tiro ecoou e nem isso abalou aquele monstro que permaneceu no mesmo ritmo frenético enquanto me dizia coisas obscenas.

    Antes mesmo de ouvir o grito e lamento de Suzana eu sabia que tinha sido Bruno a levar o tiro, algo dentro de mim simplesmente sumiu no momento que ouvi o tiro e logo em seguida confirmando Suzana começou a gritar pelo pai. Eu chorava como jamais havia chorado em toda a minha vida, meu coração tinha uma sensação de vazio profundo e um desespero começava a preencher minha alma. Eu não podia mais morder a língua e morrer em paz, Suzana só tinha a mim – você precisa sobreviver – eu repetia isso para mim como se fosse uma espécie de mantra. Minha mente em várias partes ainda acreditava que nada tinha acontecido com Bruno e que o tiro havia sido dado no outro bandido e que em breve ele viria matar o monstro que me violentava.

    Aquele monstro perdeu uma hora comigo e quando terminou me largou desfalecida sobre o tampo sem nem se preocupar em chamar ajuda, tentei
    andar para a sala mas minhas pernas não respondiam e cai no chão. Com a camisola completamente rasgada e o corpo nu exposto me arrastei até a sala e me deparei com o pior momento que já havia vivido em toda a minha vida. Suzana estava em estado de choque e havia vomitado em si mesma, o cheiro nauseante me causou enjoos, mas respirei fundo e me arrastei até Suzanna desamarrando, para longo em seguida me arrastar para Bruno que estava consciente, mas ainda respirando.

    Vendo que Bruno ainda estava vivo me esforcei para pelo menos engatinhar, todo meus sistema reprodutor doía como se eu fosse morrer e os talhos que o homem fez com a faca nas minhas costas ardiam a cada nova gota de suor que descia as minhas costas. Liguei para a emergência e uma mulher com voz cansada me atendeu, ela perguntava coisas completamente idiotas e eu já estava me irritando. Quando enfim consegui que a ajuda fosse mandada voltei para junto do corpo de Bruno e o coloquei sobre meu colo, seu peito subia e descia tão fraco que eu pensava toda hora que ele iria morrer.

    Ele delirava o tempo todo e estava soando horrores, deitei sua cabeça em uma almofada que achei jogava ali perto e fui engatinhando novamente para a cozinha atrás de gelo para abaixar sua temperatura. Voltei com um copo cheio de gelo e deitei a cabeça de Bruno mais uma vez em meu colo, passei o gelo em seu rosto e foi ai que percebi que ele não estava mais respirando. A ajuda chegou meia hora depois, mas já era tarde, eles me encontraram com Bruno em meu colo e Suzana deitada ao meu lado vomitada, eu estava estática com o rosto empapado em sangue seco.

    Capítulo dois: O dia mais frio

    Acordei às cinco da manhã com os gritos vindos do quarto de Suzana, fui correndo até lá temendo pelo pior. Entrei no quarto e Suzana se debatia enquanto babava, desde a morte do pai ela havia se tornado epilética, calmamente fiz todo o processo que o médico me ensinara e controlei o ataque, Suzana já respirava calmamente e depois de eu cantar um pouco voltou a dormir. Liguei o ventilador e sai do quarto a deixando dormindo relaxada, fui para a cozinha e preparei um chá – meu Deus eu não aguento mais essa vida – murmurei enquanto fritava algo para comer. Me sentei na sala e comi algumas fatias de bacon frito e hambúrguer juntamente com o chá, meu coração estava apertado devido a todos os problemas que Suzana desenvolveu após a morte do pai. Ela era uma criança tão alegre e comunicativa, mas depois daquele dia ela se fechou dentro de si, a psicóloga diz que não pode mais fazer nada para ajudar – aquela vaca inútil – e eu simplesmente não sei o que fazer. Sorvi os dois últimos goles do chá e me levantei, caminhei até o banheiro e tomei um banho morno rápido, vesti uma roupa leve e me pus a arrumar a casa.

    Já eram oito da manhã quando terminei de dar uma geral na casa, acordei Suzana e a coloquei para tomar café enquanto eu terminava de separar o lixo quando a campainha tocou algumas vezes. Atendi a porta e deixei a babá entrar – baba e psicóloga já que eu não confiava na psicóloga do governo – entreguei um papel para ela e sai com os sacos de lixo. Voltei para casa e peguei minha bolsa em cima do sofá, fui até Suzana e fiz nosso cumprimento secreto, beijei suas bochechas e me preparei para sair.

    - Você vai sair com essa roupa – perguntou a babá.

    - Vou sim – eu respondi sem entender nada – porquê?

    - Estava fazendo um mega frio – ela respondeu espantada – você não está sentindo?

    - Nem estou – eu respondi imaginando de onde aquela garota sentia tanto frio – o clima está ótimo e fresco.

    Sorri para as duas e fechei a porta, desci a escada correndo preocupada por ter demorado mais do que planejara para sair, antes de sair do prédio peguei as cartas na caixa de correio e as tafulhei dentro da bolsa enquanto andava na rua. Todas as pessoas estavam empacotadas como dizia minha mãe, não se via um naco de pele que fosse e eu quase nunca via ninguém de luva, achei aqui muito estranho, mas acabei deixando de lado. Cheguei na floricultura e coloquei meu avental para ajudar Lídia que era a dona da floricultura e me ajudou muito logo assim que perdi Bruno.

    Trabalhar na floricultura era perfeito para mim, assim que perdi Bruno eu fiquei desnorteada se não fosse Lídia me ajudar eu não sei o que teria feito. Ela era esposa do melhor amigo de Bruno e assim que ficaram sabendo da tragédia me chamaram para ficar com eles um tempo e me ajudaram a direcionar a minha vida novamente. Lídia me convenceu a procurar um psicólogo tanto para mim quanto para Suzana e me convidou para trabalhar na floricultura e desde então era a pessoa mais presente na minha vida e da minha filha.

    Lídia saiu na metade do dia nervosa e apresada, todas as flores haviam morrido rapidamente naquela manhã, inclusive as flores novas que ela mesma havia colhido, ela deixou a loja na minha mão e foi tentar fazer um pedido de flores novas urgente. Eu nunca havia ficado sozinha com a loja e estava extremamente nervosa, mas tentava esquecer isso jogando uma palavras-cruzadas que achei em uma das gavetas do balcão. Um homem de boné e capuz entrou na loja e depois de observar um pouco as flores artificias e outras coisas veio até o balcão, o dia nublado e a fraca iluminação da loja não me deixaram ver o rosto do homem.

    Eu quase não trabalhava atendendo clientes e aquele parecia extremamente assustador e isso piorava meu nervosismo, ele pediu um buque de rosas negras, pedi para ele esperar um pouco pois iria checar se havia o que ele queria. Fui até o frízer nos fundos da loja que ficava em uma área separada, abri o frízer e tirei um monte de rosas negras, aproveitei que estava ali peguei uma cartela de remédios no bolso do meu jeans e tomei um. Cortei as arestas, espinhos, envolvi em um papel macio branco e finalizei com uma fita e um laço negro, voltei ao balcão com o pedido do homem.

    Eu não havia reparado muito no homem, mas ao vir andando em direção ao balcão acabei observando-o por mais tempo, havia uma espécie de luz saindo dele, como uma aura ou algo do gênero de uma cor muito próxima ao roxo. Fechei os olhos com força e balancei a cabeça, ao abrir os olhos a aura não estava mais lá, coloquei um sorriso estonteante no rosto e entreguei o buque de flores ao homem. Assim que o homem saiu tranquei a loja e fui até o banheiro lavar o rosto, sequei-o com a toalha e me encostei na bancada da pia pensativa – o que foi essa parada roxa agora a pouco – eu me perguntava incessantemente.

    Quando sai do banheiro Lídia estava do lado de fora procurando a chave, me apressei até a porta e abri para ela que entrou esbaforida e levemente irritada, ela jogou a bolsa sobre o balcão acendeu um cigarro mentolado e depois de uma profunda tragada me encarou.

    - Menina você não vai acreditar – ela começou – eu estava chegando e resolvi dar uma passada lá atrás, apenas para checar que ninguém tinha estacionado na frente da nossa porta de carga e descarga. Eu entrei no beco e um homem estava tentando arrombar a porta, eu gritei com ele e ele saiu correndo assustado.

    - O que – eu perguntei incrédula.

    - É isso mesmo – ela respondeu – tinha um cara tentando invadir a loja agorinha.

    -Liga para a polícia – eu disse preocupada – vai que ele resolve vir mais tarde.

    - Sim irei ligar – disse Lídia com seu jeito despreocupado e calmo – o pior é que você já tinha me falado para colocar um alarme e câmeras.

    Balancei a cabeça concordando sem nada dizer. Lídia me deu o resto do dia de folga e me mandou embora enquanto esperava a polícia.

    Capítulo três: Metamorfose

    Fui para casa grata a Lídia, eu estava sentindo um desconforto terrível e uma pressão absurda na cabeça, quando já estava na frente do prédio uma tontura se abateu sobre mim e minha vista esmaeceu – fala sério que eu vou desmaiar – pensei tentando me segurar a algo. Me apoiei em uma das barras da grade do portão e fiquei ali com os olhos fechados esperando a tontura passar. Me sentindo um pouco melhor abri os olhos e um misto de pavor e surpresa preencheram meu ser de uma maneira indescritível, meu olhos corriam nervosamente da direita para a esquerda, enquanto minha mente tentava compreender o que acontecia a minha frente.

    As auras haviam voltado e como havia feito na outra vez fechei os olhos por um tempo e com as mãos massageei as têmporas, mas para minha surpresa ao abrir os olhos ainda estava tudo lá. Não haviam só as auras de diversas cores diferentes nas pessoas emanando de todas as pessoas, mas o mundo estava diferente, tudo era mais vívidos e brilhante – mas naquele momento eu chamaria apenas de ofuscante – como se o país das maravilhas tivesse pousado em sua frente. Algumas pessoas tinham auras extremamente foscas e apagadas e outras auras brilhantes como o sol, observando tudo ao meu redor como uma criança curiosa percebi que algumas pessoas tinham sua aura emanando muito além de seu corpo e em outras a aura não passavam de um fino contorno em seus corpos.

    Quando me recuperei do choque daquele momento país das maravilhas 3D abri a porta do prédio com a agilidade de uma raposa – o que eu mais queria era fugir daquela loucura arco-íris. No hall de entrada me encostei ofegante contra a parede e esperei meu coração se acalmar um pouco, só então fui para casa. Abri a porta de casa e Suzana ao me ver veio correndo para mim, a tomei em meus braços e fiquei ali com ela um bom tempo, entrei em casa e dispensei a babá mais cedo. Enquanto eu pagava a babá Suzana foi para a cozinha e quando eu já ia atrás dela ver o que ela estava fazendo voltou com um buque de flores negras na mão e me entregou.

    Uma vez ou outra Lídia tentava empurrar algum amigo para mim – você é muito nova e precisa encontrar um executivo encantado – era o que dizia todas as vezes com um sorriso de vendedor. Peguei o cartão dentro do buque imaginando porque Lídia teria dado meu endereço para alguém e quando li o que o cartão dizia senti minhas pernas fraquejarem, me sentei no sofá e fiquei sem reação. Suzana me observava assustada e começou a chorar, olhei para ela e perguntei o que foi e ela pediu desculpa por ter entregue o buque, fiz meu melhor sorriso possível – que saiu bem blasé – e a acalmei dizendo que não foi nada.

    Quando peguei o buque novamente para o jogar fora as flores estavam incrivelmente murchas – que quem mandou definhe como elas – desejei e as joguei na lata de lixo da cozinha juntamente com o cartão. Senti um enjoo tremendo e fui correndo para o banheiro, Suzana estava vendo TV e nem reparou, entrei no banheiro e bati a porta atrás de mim me debruçando logo em seguida sobre o vaso sanitário. Quando terminei dei descarga e fui para a pia, lavei a boca até aquele gosto amargo horrível sair e nesse momento tive um deja-vu de Suzana vomitada amarrada na pilastra e Bruno ensanguentada caído no chão da sala. Enchi a pia de água e enfiei a cara dentro para esquecer daquela cena, peguei uma toalha e enxuguei o rosto quando me olhei no espelho me assustei.

    Meu rosto estava extremamente pálido – estou parecendo uma morta – eu disse e aproximei o rosto do espelho para melhor examinar, juntamente com meu rosto meus olhos estavam opacos e sem vida e as pupilas dilatadas como as de um morto. Peguei um frasco de vitaminas no armário ao lado do espelho e sai do banheiro, a campainha tocou antes que eu chegasse na cozinha para tomar os remédios. Fui até o sofá e pedi para Suzana guardar o frasco de remédio para mim, ela aceitou sorrindo e foi correndo e eu fui até a porta para abri-la.

    - Pois não – eu disse para o homem que estava de costas para mim.

    Ele se virou e abriu um sorriso macabro para mim, assim que vi seu rosto todos os meus temores vieram à tona, tentei fechar a porta e ele percebendo isso jogou seu corpo contra a porta derrubando-me no chão. Suzana apareceu na porta do quarto gritando o que foi, o homem se virou para ela e depois para mim e então começou a caminhar para o quarto.

    - Filha se tranca no quarto – eu gritei desesperada – vai, rápido.

    Me levantei com uma agilidade felina peguei a primeira coisa que achei a frente – um livro capa dura – e desci contra a cabeça do homem que se voltou furioso para mim e me deu um tapa que me entortou. Sem sentir nada estiquei a mão para o fogão que ficava logo na entrada da cozinha e peguei uma frigideira, levei o braço o mais longe possível no apertado corredor e bati com a frigideira contra o rosto do homem. Ele se voltou para mim perdendo totalmente o interesse em Suzana e concentrando sua atenção apenas em mim e quando me dei conta do que havia feito me virei para correr dele.

    - Que comece a brincadeira – ele disse correndo para cima de mim.

    Ele agarrou quase agarrou minha blusa e acabei perdendo o equilíbrio, tropecei e cai rolando no chão, ele se aproveitou disso para pula em cima de mim, rolei para o lado e ele caiu no chão. Levantei e disparei para a sala, a casa não era grande, mas parecia que tudo estava mais longe e eu demorava mais tempo para chegar, levei uma eternidade até chegar a sala. O homem se levantou sem presa nenhuma e voltou a correr, seus olhos loucos estavam piores do que a um ano atrás na cozinha daquela casa.

    Olhei ao redor procurando algo que poderia servir para eu me defender, avistei a luminária que Lídia havia me dado no natal e a peguei, ela tinha a extensão de um braço e era de ferro no alto havia um bocal rotatório para a lâmpada. Puxei o fio com toda a força arrebentando a tomada e bati com a lâmpada contra a parede deixando pontas afiadas na extremidade da luminária. O homem esboçou um sorriso sem humor algum e veio para cima com cautela, a cada investida eu tentava o cortar e algumas vezes consegui, ele me xingava de vadia e vagabunda a cada corte novo. Fiz outra investida, mas errei quase chegando a cair e ele se aproveitou disso para me desferir um soco no peito que tirou todo meu ar, cambaleei para trás e tentei o atacar mais uma vez, apenas para o manter afastado.

    - A MERDA – eu disse quando percebi que a coisa da aura havia voltado e isso é que me fez errar eu havia mirado na aura dele. Havia uma coisa sólida e negra gigantesca em volta do homem, fiquei horrorizada ao ver aquilo, a única coisa que queria fazer era sair correndo dali, juntei todas as minhas forças e mais uma vez tentei atacar o homem e dessa vez tudo começou a girar. Senti meu corpo ficando leve e a visão escurecendo lentamente até o breu total, ao fundo a risada do homem chegava distorcida a meus ouvidos – Tomara que eu esteja morrendo – eu disse e apaguei completamente.

    Capítulo quatro: Renascimento

    Os sons chegavam distorcidos a mim, primeiro eram coisas inteligíveis apenas barulhos rítmicos e depois começaram a tomar forma até se tornar uma fala continua, uma onda de dor ecoou em minha cabeça. Forcei minha mente a lembrar o que aconteceu, eu simplesmente não conseguia lembrar de nada, minha memória parecia uma folha em branco, outra onda de dor e com ela uma enxurrada de memórias.

    Abri os olhos sobressaltada e havia apenas o branco demorei um tempo até perceber que era um teto, tentei me mover mas minhas mão e meus pés se mexiam um pouco, mas algo os segurava. Mexi mais uma vez as mãos e pés e percebi enfim que estava amarrada, o desespero tomou conta de mim, comecei a procurar com os olhos o homem e o achei sentado lendo em uma cadeira. Quando percebeu que eu estava acordada tirou os óculos estilo superman e sorriu para mim.

    - Eu estava esperando você acordar – ele disse em um tom de voz irritantemente calmo.

    - Onde eu estou – eu gritei histérica perguntando – onde está a minha filha?

    - Você está na nossa casa – ele respondeu absorto – na casa que eu comprei para quando você voltasse para mim.

    - Cadê a minha filha seu porco filho da puta – eu perguntei morrendo de medo.

    - Eu não sei onde está a sua fedelha melequenta – ele respondeu visivelmente irritado – eu larguei ela lá trancada naquele quarto.

    Fiquei um pouco aliviada sabendo que pelo menos ela estava bem, tentei mais uma vez me mexer, mas era impossível. O homem se levantou e veio até mim, o medo corria pelo meu corpo de cima a baixo trazendo um calafrio com ele, eu tremia de tanto medo que sentia eu daquele monstro. Não suportaria aquilo outra vez, dessa vez eu tinha certeza que iria me matar – você tem que suportar por Suzana – eu me lembrava.

    A mão áspera do homem passeava por meu corpo nu aproveitando cada centímetro, lágrimas desciam pelo meu rosto e eu pensava o quanto eu havia sido idiota – por quê eu achei que o cartão era uma brincadeira idiota – eu me perguntava. O homem agarrou meu rosto com força e me beijou, mordi sua língua com toda a minha força, ele socou meu rosto e se afastou com a boca vertendo sangue.

    - SUA PUTA – ele esbravejou – eu vou te matar.

    Ele veio até mim me dando outro soco no rosto, virei a cabeça e cuspi um pouco de sangue.

    - Desculpa – ele disse acariciando meu rosto – vou te recompensar.

    Ele começou a despir sua roupa e enquanto falava como ele esperou por aquele momento, em como ele sabia o quanto eu havia amado o que ele fizera comigo antes. Quanto mais ele fala, mais um ódio crescente tomava conta de mim, eu sentia como se existisse um buraco negro dentro de mim. E junto com essa sensação algo novo, diferente, que eu nunca havia sentido antes crescia juntamente, algo indescritível de tão fantástico, eu simplesmente podia sentir e mais nada.

    O homem já despido subiu na cama e se deitou ao meu lado, seu mal hálito disfarçado com menta fazia cócegas em minha bochecha enquanto ele me cheirava, eu virei o rosto bruscamente enojada e ele o puxou de volta forçando um beijo. Ele desamarrou minhas mãos e as amarrou juntas na frente do meu corpo, subiu sobre mim e colocou minhas mãos amarradas sobre sua nuca e voltou a beijar-me. Eu sentia tanto ódio, repulsa, nojo e aquela nova sensação que praticamente me dominava trazendo uma sensação de que havia algo muito importante, mas eu não conseguia lembrar. Como quando temos uma palavra na ponta da língua mais não conseguimos lembrar o nome dela de jeito algum.

    Aquela agonia estranha tomava conta de mim – o que é tão importante agora que eu deveria lembrar – eu tentava vasculhar minha mente para saber e nada a sensação apenas crescia com uma força devastadora até que ela tomou meu ser e explodiu. Num estalo eu sabia exatamente o que tinha que fazer puxei o homem contra meu corpo e correspondi seu beijo, ele continuou beijando por um tempo e depois começou a tentar se soltar, mas eu continuava o puxando contra mim. Ele começou a se debater frenético como se estivesse tendo um ataque, seus braços e pernas debatiam-se frenéticos e eu continuava o beijo.

    Enquanto eu o beijava eu ouvia vozes de todos os lados, lamúrias, súplicas, choros, eu podia sentir dor, angustia, medo e tudo aquilo vinha e ia muito rapidamente. Eu podia ser diversas pessoas ao mesmo e ninguém, eu tinha a consciência de todas elas ao mesmo tempo e nenhuma. Uma pressão absurda dominou todo meu corpo e acabei soltando o homem, ele cambaleou para longe de mim me xingando e perguntando o que havia feito com ele – nem eu sabia o que havia feito – pensei assustada.

    O homem caiu de joelhos no chão enquanto gritava de dor, mas isso não durou muito tempo e ele caiu morto no chão, e algo dentro de mim sentia que ele estava morto. Desamarrei minhas pernas e depois com uma faca cortei as amarras da mão e vesti roupas femininas que haviam no armário do quarto onde o homem estava caído morto. Sai da casa o mais rápido possível transbordando medo e confusão, fechei o portão da casa atrás de mim e para minha surpresa parado do outro lado da rua estava o idoso que eu havia ajuda.

    Ele atravessou a rua com uma velocidade assustadora para um senhor de idade e parou me encarando com um sorriso orgulhoso e sádico no rosto como se soubesse o que eu havia feito. Dei dois passos para trás assustada, mas o velho se aproximou novamente, eu olhava para os lados procurando alguém, mas a rua parecia estranhamente deserta.

    - Olá filha – ele disse – você está pronta.

    - Como é que é – eu perguntei assustada.

    O homem sorriu gentil e estendeu a mão para mim, mesmo temerosa aceitei a forte e ele me guiou para uma loja com a vitrine espelha, fiquei olhando para a vitrine sem nada entender até que o homem se transformou. Onde antes havia um velhinho gentil e inofensivo surgiu um ser impossível, sua forma era esguia e humana porem parecia ser apenas um eco da forma humana. Sua pele era semi-transparente com diversas rachaduras por ela e dessas rachaduras uma luz azulada era emitida, como um fogo fátuo. A coisa dava a impressão de não estar ali e ser apenas uma ilusão, fechei os olhos crendo que tudo era uma alucinação e ao abrir ainda estava ali.

    A coisa me contornou, colocou suas mãos sobre mim e virou meu corpo em direção a vitrine. Quando meus olhos viram o reflexo da vitrine eu quase gritei, mas a voz me fugira completamente. Eu era uma coisa da figura que estava atrás de mim, uma cópia perfeita com um pouco mais de curvas aqui e ali – não é possível – eu pensei e sai correndo daquela visão horripilante. Corri desesperada pela rua deserta e olhava a cada minuto para trás esperando que aquela coisa me seguisse, mas não havia nada. Tropecei enquanto corria como louca e cai em um canteiro de rosas, cai de joelhos no chão e as mãos esparramadas no canteiro, assim que recebeu meu toque as rosas foram morrendo gradativamente.

    Tirei as mãos assustadas e recuei me arrastando no chão, uma senhora que passava na rua colocou a mão em meu ombro perguntando se estava tudo bem, dei-lhe um tapa assustada e me levantei andando de costas me afastando da mulher. A velha começou a se contorcer gritando em agonia, eu podia sentir cada célula de seu corpo morrendo, eu podia sentir a vida abandonando-a – MEU DEUS O QUE EU FIZ – pensei.

    Nesse momento um homem muito bonito de pele alva como a neve parou ao meu lado, me afastei o mais rápido que pude dele, eu não sabia o que estava acontecendo, mas tinha uma certeza era culpa minha. O homem se virou para mim e me sorriu gentilmente enquanto se aproximava, desesperada dei vários passos para trás ficando contra a parede.

    - Por favor não se aproxime – eu disse.

    Logo em seguida uma senhora idosa com uma jovem se aproximou e ficaram paradas juntamente ao homem, eles me observavam de cima a baixo com uma curiosidade incompressível no olhar. O homem idoso veio caminhando calmamente e parou em minha frente com aquele mesmo sorriso orgulhoso e sádico no rosto.

    - Não adianta fugir de quem você é – ele disse.

    - O que você fez comigo – perguntei com a voz tremula.

    - Adotei você – ele respondeu – e este é seu noivo.

    O homem bonito e alvo como a neve deu um passo à frente e mostrou um sorriso extremamente branco e perfeito.

    - No dia que você me ajudou eu sabia que você seria a filha perfeita – disse o senhor orgulhoso de sua escolha – Eu não tinha filhos e precisava de alguém para receber meu sangue e ficar em meu lugar.

    Olhei incrédula para o homem sem entender nada daquele monte de loucura que ele falava.

    - E você seria quem – perguntei tentando adquirir alguma informação que eu fosse compreender.

    - Desculpe minha falta de educação – o velho disse – Eu sou a morte.

      Data/hora atual: Seg Nov 19, 2018 12:31 am