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    A última poesia

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    correventos

    Mensagens : 1
    Data de inscrição : 16/05/2013

    A última poesia

    Mensagem por correventos em Qui Maio 16, 2013 1:41 pm

    Este é apenas o início de minha história, sobre uma valquíria (serva do deus nórdico Odin) que se apaixona por um guerreiro morto em combate. Para que ele pudesse continuar vivo, ela propôs um trato á Odin: ele ressuscitava seu amado, e ela se destituía de todos os seus poderes. No entanto, o mortal bastante poderoso se torna prisioneiro de um dos gigantes, e para salvá-lo Victória Reginleif rouba a lança do grande deus e tenta derrotar seus inimigos. Porém, ela não obtem êxito, e ainda é expulsa do mundo dos deuses (Asgard) e perde sua memória no momento em que caí no mundo dos homens (Midgard.

    Victória caminhava cambaleante sobre um terreno inóspito e áspero onde um incessante e sufocante calor reinava, e que começara a afetar seus principais sentidos como a visão e a audição. Já se passara duas horas desde que acordara e não lhe ocorria nenhuma pista ou vestígio que indicasse de onde partira; tampouco possuía um destino final para que pudesse repousar tranquilamente enquanto se refrescava com um generoso copo de água gelada. Não havia árvores naquele local, apenas uma rala e tênue vegetação que se estendia por pouco mais de dois metros quadrados, e que abrigava pequenos seres vivos como gafanhotos e formigas. Enquanto prosseguia por seu incógnito percurso, montanhas surgiam conforme se aproximava do leste, direção no qual habitava desde pequena (ou era o que sua mente perturbada juntamente com o calor insuportável a faziam pensar).
    A bela jovem de rosto angular vestia apenas uma antiga e surrada camisa de flanela, e para completar sua imagem uma calça jeans com furos e remendos lhe servia como guarnição para as pernas. Suas longas madeixas loiras estavam atadas em uma trança contínua que alcançava o fim de suas costas, e este belo penteado a fazia parecer uma princesa de estórias medievais. Seus olhos esverdeados avistaram o que poderia ser uma miragem, mas que se concretizou como uma mísera e solitária cabana de madeira com apenas uma pequena porta branca na parte frontal. Seu coração se alegrou, pois talvez aquele lugar pudesse ser sua salvação do calor intolerável que perdurava há muito tempo. Ela inclusive podia imaginar o que havia ali dentro... Possivelmente coisas velhas, alguns móveis de madeira nobre, frutas frescas e uma garrafa com água gelada pronta para ser bebida. Um frescor repentino assaltou-a e conseguiu aliviar a altíssima temperatura que persistia naquele deserto infértil, mas que trouxe consigo algumas gotas pluviais que prometiam uma garoa. Portanto, como previsto, uma chuva exauriu dos céus como um presente a Victória, que agradeceu aos deuses pela graça bem vinda; não obstante, aquela súbita e perene precipitação tornava-se mais e mais forte a cada minuto passado... E isso começava a atrapalhar o caminho até o casebre, seu atual destino.
    Ainda restavam uns 200 metros até a pequena casa, e a chuva desabava com demasiada força do céu que ficara negro há pouco tempo. A andante não viu alternativa a não ser abrigar-se em uma pequena gruta que se localizava a dez passos dali, próxima a uma montanha solitária. Ela pôs-se a correr até finalmente alcançar o tão desejado local seguro, e rapidamente se acomodou na parede inferior da caverna para que pudesse repousar e até dormir um pouco. A fome não a perdoava; já se passaram alguns dias desde que comera sua última refeição, e a sede também a castigava rigorosamente. No entanto, não desejava caçar nenhum animal, tampouco saborear daquela chuva ácida... Mas não havia outra saída a não ser sujeitar-se aquilo.
    Formando uma cuia unindo as duas mãos, ela conseguiu apanhar um pouco da água da chuva, e sem esperar, bebeu todo o líquido com tamanha rapidez que por pouco não se engasgou. Aquilo a satisfez imediatamente, mas não demorou a que os efeitos colaterais surgissem em seu corpo, como um atordoamento repentino e a fraqueza nos membros superiores e inferiores. Victória tentou se apoiar nas paredes da gruta, mas não se conteve e acabou por desfalecer no chão úmido e gélido que lhe serviu de cama pelas próximas horas.
    A jovem loira despertou e de súbito despontou da confortável cama de seda que lhe era familiar, mas que fugia de seus pensamentos todas as vezes que arriscava se recordar dela. “Mas que lugar é esse? Talvez a caverna fosse parte de um fantasioso sonho... mas este quarto não é o que eu estou habituada a dormir.” Devaneios lhe ocorriam naquele momento, e a dúvida a penitenciava severamente adjacente da fadiga que se asilava dentro dela há muito tempo. Ela olhou ao redor e começou a observar o recinto em que adormecera; era um lugar extravagante, com cortinas de seda e janelas de ouro, e um tapete feito da pele de algum animal se estendia por todo o quarto. O rodapé incrustado de diamantes refletia a luz solar que penetrava ali através de pequenas frestas na parede, resultantes da ação do tempo. Um barulho vindo da parede paralela a porta se propagou por todo o quarto, e fez Victória se virar rapidamente para averiguar sua origem. Ao decorrer de um minuto nada aconteceu no quarto; porém, ao soar de uma estranha trombeta de som grave, a porta de ouro maciço se irrompeu em chamas, logo em seguida se desintegrando por completo. A luz intensa das labaredas cegou a jovem temporariamente, fazendo com que ela não identificasse aquele que penetrava no patamar naquele exato instante. A seguir, o estranho caminhou pelo pequeno espaço observando tudo que estava ali, e notando a presença perturbadora de Victória sentada em seu leito de olhos cerrados, ele sacou sua espada de sobressalto e quase a decapitou acidentalmente. A jovem recuperou sua visão, e após ver o intruso que quase a matara, surpreendeu-se com uma familiar expressão de dúvida que se implantava na face do sujeito. Seus olhares se encontraram, e de um súbito movimento Victória levantou-se e iniciou um breve diálogo para com aquele homem que lhe assustava.
    -Quem é você, que adentra com tanto alvedrio em meus aposentos? Parece-me familiar; mas não me recordo de ti. Peço que elucide minhas imprecisões, por obséquio.
    -Primeiramente, este lugar não lhe pertence. Eu encontrei-a doente, desfalecida e imunda numa caverna de solo gélido e paredes rochosas não muito longe daqui; por conseguinte, decidi trazê-la para minha casa para que fosse cuidada por minha irmã e eu... E vejo que está bem melhor do que antes.

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