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    Até que a morte nos separe

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    ravennakimov

    Mensagens : 3
    Data de inscrição : 17/12/2014

    Até que a morte nos separe

    Mensagem por ravennakimov em Qua Dez 17, 2014 3:09 pm

    Capítulo um: O rapaz Colorado

    O sol já havia nascido a tempos, mas eu permanecia ali deitado imóvel fitando o teto enquanto o ventilador dançava para mim, minha mente tentava se organizar, e eu pensar em algo claro. Fechei os olhos com força e me levantei da cama em um solavanco – a vida é curta – murmurei e vesti o jeans surrado jogado no chão juntamente com a blusa do time colorado pendurada sobre a cadeira e sai com uma mochila nas costas. Na recepção o homem gordo que me atendera enfezado na noite anterior lia seu jornal tão enfezado quanto antes, paguei a diária do hotel de quinta e pedi para encher o tanque de meu carro. Um Pegeut 206 estava estacionado do lado de fora do hotel, assim que o tanque encheu devolvi a mangueira a seu devido lugar e parti com o carro para o sul.

    - Você deveria ter perguntado onde fica Monte Luz – disse Laura ao saírmos com o carro.

    - O cara era tão azedo quanto um limão – respondi jocoso.

    - Mas me diga, então como você vai achar Monte Luz agora – ela perguntou com aquele olhar de quem sabe a resposta e só pergunta para mostrar sua esperteza.

    Sorri para Laura desdenhosamente e abanei um mapa em sua frente.

    - Muito esperto – ela respondeu visivelmente orgulhosa.

    Liguei o rádio e coloquei nossa fita para tocar – sim uma fita – não importa o ano que você está fazer uma fita para uma mulher ainda é muito romântico – para muitas pessoas a mixtape que preparei para Laura era estranha, mas ela entendia. Theme of Laura começou a tocar e ela fechou os olhos para sentir a música, eu queria fazer o mesmo, mas dirigir não permitia, ainda assim eu podia sentir as vibrações fantásticas daquela música. Ela começou a cantarolar a letra que eu havia escrito para ela sobre a melodia da música, de tanto ouvir já sabia decorada. Sorri contente por ter feito talvez o melhor presente de um mês de namoro para Laura. Já estávamos casados a um ano e meio e namoramos durante cinco meses, mas não foi necessário mais tempo para sabermos que queríamos passar o resto da eternidade juntos todo o tempo. Enquanto a mixtape tocava Laura cantava a letra das músicas instrumentais com sua doce voz melódica, não havia nada que ela gostasse mais do que cantar, no banheiro, cozinhando, trabalhando, irritada, feliz, ela sempre estava a cantar. A fita acabou e coloquei um CD para tocar enquanto Laura retocava sua maquiagem no espelho do carro – ela tinha o hábito de nunca se maquiar em casa, para ela era mais aventureiro fazer isso na rua – Lovefoxxx começou a cantar no fundo e Laura instantaneamente começou a cantarolar enquanto passava seu batom vermelho.

    Demoramos mais dez horas de viagem até chegar a Monte Luz, a cidade era completamente deserta, aqui e ali via-se uma pessoa andando apressada com a cabeça baixada sem tirar os olhos do chão. Fomos para o que parecia ser o único hotel – se é que aquilo poderia ser chamado de hotel – pedi um quarto para nós e Laura foi na frente, voltei para o carro e subi com as malas. O hotel aparentemente já havia sido um motel pois havia apartamentos com garagens que aumentavam a privacidade do cliente, manobrei o carro para a garagem do apartamento e subi para ver o quarto. O lugar havia sido reformado desde sua época motel, agora era apenas um confortável quarto normal de hotel, sem as extravagâncias de pole dance ou sauna que a maioria dos motéis ofereciam. Eu estava completamente esgotado pelo tempo dirigindo e depois de um bom banho de banheira me divertindo com Laura fomos para a cama, mesmo com o cansaço acabamos nos amando a noite toda. Quando o sol estava para raiar acendi um cigarro certo que aquela era a melhor noite mal dormida que um homem poderia ter. Laura se deitou sobre meu peito calmamente, passei a mão por seus longos cachos vermelhos e a beijei ternamente ela se aninhou mais ainda em meu peito e dormiu ali. Fiquei apenas observando ela dormir por um tempo e depois fechei os olhos me concentrando em sua respiração que agora pesada ia e vinha rapidamente – o que será que você está sonhando – pensei antes de cair no sono também.

    Um pequeno facho de luz solar me despertou por estar exatamente sobre meu rosto, murmurei irritado e abri os olhos, como sempre fazia, Laura estava em posição fetal segurado os joelhos e com a cabeça encostada neles virada para a parede. Esbocei um leve sorriso observando como ela parecia apenas uma menininha inocente, cobri seu corpo nu e sai da cama silenciosamente. Me vesti e sai do quarto sorrateiro como um gato, desci as escadas camuflado em meu casaco com capuz e um boné de basquete, coloquei meu óculos de sol e entrei no carro que estava estacionado em uma esquina próxima ao hotel. Liguei o carro e dirigi por quase durante três horas ouvindo a fita que havia feito para Laura em loop até chegar ao meu destino, Rua Augusta.

    Capítulo dois: A saideira

    Desacelerei o carro e baixei a janela, o cheiro de urina misturado com lixo e outras coisas invadiu todo o lugar, diminui um pouco o som e rodei algumas vezes pela Augusta observando tudo ao redor. Mulheres voluptuosas se insinuavam no meio fio com suas roupas curtíssimas e suas maquiagens fortes, cada uma tentava chamar atenção a sua maneira para conquistar o cliente. Parei ao lado de uma negra de cabelos claros, ela se debruçou na janela com um sorriso e olhar felino perguntando o que eu iria querer, fechamos um acordo e ela entro no carro. Conversamos um pouco para quebrar o gelo e eu ficar mais confortável, a levei até um hotel e comemos no restaurante do hotel de luxo depois subimos para um quarto que eu pedi e antes mesmo de chegarmos ao quarto já nos agarrávamos. Entramos no quarto e a joguei na cama, ela começou a tirar minha roupa e acariciar meu corpo enquanto eu deslizava minha mão pelo seu corpo me deliciando com cada curva que encontrava. Enquanto ela tirava o resto de sua roupa, fui até o frigobar e abri uma garrafa de champanhe para nós, seus olhos brilharam quando viu a taça. Ela bebeu tudo em um único gole e entusiasmado segui seu ato, voltamos a nos acariciar e até me beijar ela beijou, mesmo que tivesse deixado estritamente fora de cogitação. Estávamos seminus na cama elegante do hotel quando ela apagou, vesti minha roupa novamente e aproveitei para ir até o banheiro, parei de frente para o espelho e me observei por um tempo antes de socar violentamente o espelho.

    - MAS QUE MERDA EU TO FAZENDO – me pergunte histérico.

    Sentei no vaso sanitário e chorei copiosamente, mesmo que eu tentasse parar não conseguia as lágrimas continuavam escorrendo mesmo que eu me xinga-se mil vezes tentando fazer parar. Em lágrimas terminei de vestir a roupa, dobrei as roupas da mulher e deixei dez vezes mais do que combinamos sobre a mesa e paguei o resto do dia no hotel para ela juntamente com um spá antes de sair. Deixei um pequeno bilhete sobre o criado mudo para quando a mulher acordasse. Voltei para Monte Luz ouvindo a fita de Laura novamente enquanto chorava como um bebê, antes de sair do carro chorei mais um pouco sequei o rosto com a manga da camisa e fui para o nossos quarto. Laura estava sentada em uma poltrona de frente para a janela totalmente absorta em um livro, caminhei na ponta dos pés até ela e cobri seus olhos com as mãos e perguntei quem era. Ela sorriu e apenas abaixou minhas mão, me puxou pelo pescoço e me beijou docemente.

    - Como foi seu dia querido – ela perguntou.

    - Ah Laura, eu sou um fraco – respondi me afundando na poltrona ao lado da sua.

    - Claro que não é – ela respondeu enquanto brincava com meu cabelo.

    - Mas eu não cumpri a promessa que te fiz – respondi sincero.

    - Tudo bem amor, mesmo que você não cumpra ainda vou te amar – ela respondeu e pegando minha mão a beijou.

    - Como eu te amo – eu disse.

    - Eu também sempre te amarei – ela respondeu.

    - Até a eternidade – afirmei e ela repetiu a mesma coisa.

    Como aquele era nosso primeiro dia de lua de mel na cidade resolvi fazer um programa romântico, saímos para passear no parque e andamos de bicicleta juntos até um lago onde havia uma cachoeira. Nadamos na cachoeira e exploramos a caverna que havia atrás dela, depois disso fizemos um piquenique a beira do lago e passamos o dia todo ali namorado e conversando. O dia estava perfeito, o sol agradável e o vento perfeito nos fizeram adormecer deitados sobre o lençol do piquenique, ficamos ali os dois abraçados dormindo sabe-se lá Deus por quanto tempo, mas foi maravilhoso. Quando acordamos Laura estava felicidade pura e enquanto voltávamos caminhando para o hotel depois de termos devolvido nossas bicicletas passamos por uma festa tradicional da cidade.

    Laura me puxou para dentro da festa, ela era apaixonada por estudar a história e cultura de outros povos, as pessoas vestiam máscaras de feras da floresta e dançavam em volta de uma fogueira enquanto entoavam cânticos. Entramos na roda e começamos a cantar, dançar e pular juntamente com aquelas pessoas, Laura sorria como uma menina travessa ao ir na festa que a mãe não deixou. Eu a seguia dançando e pulando sem entender nem metade do que estava rolando, mas apenas feliz por estar na presença dela, sua alegria e jeito de ser estava começando a contagiar as pessoas que a incentivavam a dançar mais.

    Ela era a mulher mais fantástica que já havia encontrado em toda a minha vida, a primeira vez que nos vimos foi como em uma história de cinema, um homem – mas prefiro chamar apenas de babaca para não fazer parte do mesmo grupo que eu – vinha dirigindo e falando no telefone. Laura estava comprando um guarda-chuva em um vendedor de rua quando viu duas crianças conversando enquanto atravessavam o sinal vermelho na faixa, o homem muito ocupado em sua ligação não viu as crianças e continuou em alta velocidade. Quando Laura percebeu o desastre que iria acontecer ela pulou em cima das duas crianças jogando-as na calçada. O homem só viu o vulto de Laura na sua frente e tentou desviar jogando o carro exatamente para a calçada que ela havia jogado as crianças, Laura empurrou as crianças mais uma vez e a mim juntamente para fora da calçada. O homem bateu com o carro no poste que por sua vez estava com a lâmpada frouxa que caiu na cabeça de Laura desmaiando-a no local.

    Como ela havia salvado minha vida e a das crianças acompanhei ela na ambulância para o hospital e fiquei de prontidão até ela acordar, Laura abriu os olhos só três dias depois e com um sorriso resplandecente. Expliquei a ela o que aconteceu e ela além de estar irritada com o motorista ficou irritada apenas com o governo que deixou aquela lâmpada solta e poderia ter caído na cabeça de qualquer pessoa. Ela assim que terminei a história perguntou muito preocupada se as crianças estava bem e eu a acalmei dizendo que as crianças apenas ficaram assustadas com tudo, mas estavam ótimas. Seu alívio era visível, ela voltou a recostar na cama e quando o médico disse que ela teria que ficar internada alguns dias em observação ela irritadíssima disse que perderia aulas importantes da faculdade. Vendo o desespero de Laura me ofereci para todos os dias ir na sua faculdade e pegar a matéria com seus colegas de classe para ela.

    Depois daquilo começamos a sair frequentemente e descobrimos que tínhamos tanta coisa em comum que era completamente incomum, não demorou muito para me ver perdidamente apaixonado pela minha salvadora. Um dia tomei coragem e pedi Laura em namoro, ela para minha surpresa aceitou como se já esperasse isso e não demorou quase nada para termos certeza que iríamos nos casar. Quando a apresentei a minha família os parabéns eram tão sinceros que pensei ter me enganado de casa, principalmente da minha mãe que adorava criticar qualquer garota que eu pensasse em gostar. Laura era assim, tão gentil, cheia de vida, engraçada e interessante que ninguém conseguia odiá-la, nem minha mãe – e isso era um milagre de santa Laura.



    Capítulo três: Às Vezes Eles Voltam

    Depois daquela festa típica com Laura e de beber algumas voltamos cambaleantes pelas ruas da cidade, Laura parou em frente a uma porta com uma imunda cortina de ossos olhei para ela com ar de quem não acredita, mas ela lançou seu sorriso fatal. Acabamos dentro de uma casinha cheirando a incenso, uma nevoa densa estava por todo o lugar, uma senhora esguia estava sentada em um sofá vermelho. Laura se sentou em uma das poltronas de frente para o sofá, me sentei na outra e fiquei apenas observando o que poderia vir daquilo, a mulher se levantou com uma agilidade inesperada e voltou com duas xicaras de chá. Peguei a xícara que estava a minha frente e beberiquei um pouco do líquido que estava fumegando, a mulher tomou vários goles antes de colocar delicadamente a xícara sobre a mesa e me encarar.

    - Que belo jovem apaixonado nós temos – ela disse sem tirar os olhos de mim. Eu sem nada entender me virei para Laura desviando do olhar fixo da mulher, Laura absorta observava cada detalhe daquela pequena casa. Não querendo passar por mal educado bebi mais alguns goles do chá fervente e sorri sem graça para a mulher me levantando enquanto apoiava Laura para sair. A senhora rápida como uma raposa atravessou a distância até a porta e quando estávamos fora colocou a mão em meu ombro e quando a olhei ela me encarou por um tempo antes de murmurar algumas palavras e sorrir gentilmente. A mulher fechou a porta atrás de nós e voltamos a seguir nosso caminho para o hotel, o chá havia diminuído o efeito do álcool e apenas andávamos com cuidado.

    A noite já estava avançada, Laura e eu chegamos no quarto e depois de arrancarmos a roupa fora nos deitamos seminus abraçados ouvindo um a respiração do outro. A noite estava fresca, mas não era necessário lençol pois o calor de nossos corpos aquecia-nos mutuamente impedindo o frio. Ficamos ali em silêncio aproveitando a companhia um do outro, desde que nos conhecemos passávamos muitos momentos em silêncio felizes com o simples fato do outro estar ali. Não eram necessárias palavras ou toques, a presença do outro já bastava, podíamos passar a vida toda em silêncio apenas no mesmo cômodo e morreríamos felizes e completos. Laura foi a primeira a dormir, seu corpo estremecia de tempos em tempos e sua respiração agora estava mais pesada, abracei-a mais forte mesmo que isso não fosse fazer diferença em seu sonho.

    Perdi a noção de quanto tempo fiquei ali deitado entorpecido observando o teto, minha cabeça zumbia como se fosse explodir por estar sobre muita pressão, com cuidado tirei Laura de cima de mim e sai da cama. O chão estava úmido e quando meus pés tocaram-no um frio desceu minha espinha como algum tipo de premonição, balancei a cabeça espanando aquele pensamento para longe. Vesti roupas limpas e sai do quarto, a lua cheia brilhava com uma luz sinistra meio esverdeada – linda noite – pensei lembrando a cena de meu filme favorito. Entrei no carro e fiquei observando a lua um tempo deixando minha mente se tornar líquida e viajar a todos os lugares e lugar algum, aquele tom esverdeado e a luz esmaecida ao redor da lua me deixava hipnotizado. Liguei o rádio e como de costume coloquei a fita de Laura para tocar e sai com o carro sem nenhuma ideia de para onde eu ia, apenas me deixando guiar pela lua no céu. Me deixar levar daquela maneira a cada minuto parecia a única coisa certa a se fazer, minha mente estava leve como se um grande peso tivesse sido tirado dela. A lua passeava pelo céu guiando meu caminho até um pequeno beco estreito em uma cidade que eu não fazia ideia de qual era. Parei o carro em frente o beco e fiquei ali ouvindo a música e deixando minha mente vagar quando uma mulher bateu na janela do carro, abaixei o vidro parar ver o que ela queria.

    A mulher com um sorriso debochado puxou uma menininha de oito anos para frente dela e disse que era apenas cem reais sorrindo mais uma vez debochada, concordei com a cabeça e sai do carro. A mulher me guiou para dentro do beco enquanto puxava a garotinha atrás dela que tremia como vara verde. A mulher parou em frente a uma caçamba de lixo e mandou a garotinha tirar a roupa, fiquei observando tudo absorto sem entender porque a lua havia me levado até ali. A mulher parou a minha frente estendendo a mão para mim, demorei um tempo para perceber tanto a mulher quanto o que ela queria, tirei uma nota de cem da carteira e entreguei a ela. Ela estendeu a nota contra a luz e depois de checar se era verdadeira guardou com um sorriso triunfante no avantajado decote de sua blusa vermelho sangue.

    - Aqueles que só tem escuridão em seu coração podem trazer luz ao mundo – me lembrei do que a velha havia murmurado para mim enquanto saia de sua casa em Monte Luz. Como que um relâmpago tudo ficou claro para mim naquele momento, o porquê da lua ter me guiado até aquele beco, exatamente onde estava a garotinha. A menina terminou de tirar a roupa e encostou na caçamba apavorada enquanto observava a mim e a mulher. A mulher se virou de costas para nós observando a rua checando que ninguém apareceria para nos atrapalhar, aproveitei isso para pegar uma barra de ferro que estava no chão e acertei a cabeça da mulher em cheio. Ela caiu no chão desmaiada e a garotinha apenas emitiu um gemido ficando paralisada me observando, mandei-a colocar a roupa e entrar no carro prometendo que agora ela estava segura.

    Enquanto a garotinha se vestia fui até a entrada do beco ver se havia algum movimento, a rua estava completamente deserta, voltei para dentro do beco e arrastei o corpo da mulher até o carro. Coloquei o corpo inerte que ainda respirava dentro do porta malas com cuidado para não machuca-la. Entrei no carro e arranquei sabendo exatamente para onde deveria, agora tudo estava claro como água cristalina em minha mente, voltei para o hotel em Monte Luz e mandei a garotinha esperar no carro que estacionei em frente ao apartamento em que estava hospedado. Subi as escadas e abri o congelador, tirei o corpo sem vida de Laura com cuidado e o carreguei até o carro colocando sobre o corpo da mulher nocauteada com todo o cuidado do mundo. Subi mais uma vez para o quarto e peguei uma bolsa que estava embaixo da cama, desci com a bolsa e a joguei no banco traseiro do carro e a garotinha apenas observava a tudo sem dizer uma palavra se quer. Entreguei a chave do quarto para ela e mandei ela me esperar lá dentro e se quisesse comer era só pedir qualquer coisa pelo telefone que depois eu pagaria, ela acenou afirmativamente com a cabeça aceitando.

    - Obrigada por ter me salvado – ela gaguejou.

    - Não foi nada – eu respondi doce para ela.

    - Onde você vai – ela perguntou antes de sair do carro.

    - Vou buscar minha esposa – respondi extremamente feliz – você vai gostar dela.

    - Qual o nome dela – ela perguntou.

    - Laura – respondi com um sorriso abundante.

    A menina saiu do carro e fui dirigindo calmamente até o lago, estacionei o carro com cuidado e tirei as duas mulheres do porta malas e as deitei no chão de terra. Depois de tirar toda a roupa do corpo das duas peguei uma faca e desenhei um símbolo no peito de Laura e da mulher minunciosamente. Quando terminei o símbolo cortei as palmas das mãos e derramei sangue sobre o peito as duas. A mulher que eu nocauteara começava a acordar e ao perceber que estava amarrada começou a se debater e gritar, soquei seu rosto violentamente para que ela parasse de se mexer para e continuasse caindo a mesma quantidade de sangue sobre ela e Laura. A mulher olhou para Laura apavorada e voltou a gritar dessa vez mais histérica – que tola – pensei.

    Montei sobre a mulher que se debatia e retirei o cinto que segurava minha calça, a mulher arregalou os olhos e se debatia mais fortemente, revirei os olhos irritadiço com aquele comportamento. Respirei fundo tentando tomar coragem – Deus eu amo tanto Laura – pensei, e aquele pensamento me deu coragem novamente, abri os olhos e enrolei o cinto no pescoço da mulher. Comecei a puxar as extremidades do cinto para lados opostos fazendo-o apertar o pescoço da mulher vagarosamente enquanto eu repetia frenético o mesmo conjunto de palavras com todas as minhas forças na minha melhor entonação possível.

    - Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn – eu gritava na melhor pronuncia possível.

    A mulher lutava veementemente contra mim, suas mãos me arranhavam e me sangravam com força, mas eu não me importava apenas continuava a repetir e repetir aquelas palavras inteligíveis. A mulher chutava e se debatia como louca chegando a quase me jogar de cima de seu corpo, como um touro em um rodeio que tenta a todo custo tirar o cowboy de suas costas e eu como um bom cowboy me prendia com todas as forças sobre ela. Em um momento a mulher conseguiu achar uma pedra e a chocou contra minha cabeça fazendo meu mundo girar e tudo ficar negro por alguns segundos, tempo suficiente para ela me empurrar e começar a correr. Desesperado me recompus rapidamente e corri atrás dela enlouquecido, a mulher me xingava e pedia socorro enquanto corria – graças a Deus ninguém vem desse lado do lago – pensei agradecido.

    Agarrei a mulher pelos cabelos e a joguei contra o chão, nos engalfinhamos em uma luta feita de mordidas e unhadas da parte dela e socos do meu lado, ela me chutou no meio das pernas e quase conseguiu fugir, mas minha mão continuou segurando seus cabelos enquanto me recompunha. Mesmo com a dor insuportável me forcei a engatinhar puxando a mulher pelos cabelos que se debatia e tentava segurar qualquer coisa pelo caminho, puxei-a até o corpo de Laura pondo as duas lado a lado novamente. Com muita dificuldade montei mais uma vez sobre a mulher e a cada movimento dela eu podia jurar que morreria tamanha a dor, mas eu não desistiria, não agora que estava tão perto. Peguei o cinto que ficou caído no chão e voltei a apertar o pescoço da mulher repetindo freneticamente as palavras dessa vez com mais paixão na voz. Quando os olhos da mulher começaram a revirar e suas mãos começaram a perder a força coloquei uma das pontas do cinto sob meu joelho e diminui a força com que puaxava o cinto. A mulher começou a respirar com menos dificuldade, fiz um talho em sua mão e segurei a mão sobre o rosto de Laura fazendo o sangue pingar em sua boca. Enquanto o sangue pingava voltei a puxar o cinto com força, a respiração da mulher voltou a diminuir cada vez mais até que ela parou. Me Levantei rapidamente e fiz outro talho em meu braço e coloquei o braço sobre a água deixando o sangue pingar nela manchando e se dissolvendo logo em seguida.

    - Não está morto o que pode eternamente jazer, e com estranhas eras pode até a morte morrer – murmurei com um olhar perdido.

    Assim que terminei a frase uma explosão ocorreu no lago, fraco e assustado cai no chão, a água começou a formar uma figura inominável a minha frente e chocado não conseguia me levantar e correr – e nem poderia pois Laura ainda estava ali. A forma de tamanho colossal deslizou em nossa direção enquanto emitia um som gutural de dentro de seu ser disforme e fantasmagórico. A figura parou ali na beirada do lago e ficou nos encarando – mesmo que ela não possuísse olhos eu podia sentir que ela me observava de alguma maneira – água começou a se desprender da figura formando algo similar a uma mão que pegou o corpo inerte da mulher e o puxou para dentro de si. Permaneci ali parado esperando, se aquela era minha morte, eu a aceitaria pois já havia cumprido com todos os meus deveres, e morreria feliz se fosse ao lado de Laura. A figura olhou demoradamente para Laura e voltou para o centro do lago, seu tamanho começou a diminuir como se ela voltasse a afundar nas profundezas, depois de alguns minutos o lago estava novamente calmo como se nada daquilo um dia tivesse ocorrido. Quando a última onda no lago se dissipou Laura saltou como uma pessoa que recebe uma injeção de adrenalina, ela olhou assustada em volta e depois para mim, me arrastei para ela e a abracei chorando como jamais havia chorado.

    - Eu te amo tanto Laura – eu disse aos prantos – estou tão feliz que tenha voltado.

    Laura apenas sorriu gentilmente para mim como sempre fazia e retribuiu o abraço com toda a sua força, ficamos ali abraçados como nunca havíamos ficado antes, os dois chorando e sorrindo ao mesmo tempo em um mix de emoções.

    Observação: No texto existe a seguinte frase "- Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn" que é uma referência direta ao AKLO, se alguém quiser que eu diga o significado depois é só falar comigo. No entanto não acho relevante no texto.

      Data/hora atual: Seg Set 24, 2018 8:16 am