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    [DISTOPIA] Apokalum

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    Aline.Carvalho

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    Data de inscrição : 21/01/2015
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    [DISTOPIA] Apokalum

    Mensagem por Aline.Carvalho em Qua Jan 21, 2015 3:33 pm

    Boa tarde a todos,

    Gostaria de submeter um trecho do meu livro ao crivos de vocês.
    Nunca ninguém além de mim o leu, estou ansiosa por qualquer crítica construtiva.
    Não possuo prática com escrita de romances, apenas de textos para revistas virtuais e no cunho de debates e não histórias.

    Agradeço desde já.

    " O despertador da cidade toca. Uma sirene suave que parece vir de dentro da minha cabeça, como se o meu subconsciente me despertasse.
    Mais uma manhã se aproxima e novamente chega à hora de levantar. Por que não posso dormir mais? É muito enfadonha essa rotina. Apesar de não fazer a mesma coisa todos os dias, todos eles parecem iguais.
    Os outros parecem gostar, sempre estão animados, sorrindo, eu fico cada vez mais distante.
    Nossa cidade é grande, um dia já foi todo um país, mas boa parte dela é proibida, um reduto de reservas naturais, guardados e cuidados à sete chaves, para que um dia o planeta possa ser reabitado.
    Já faz muitos anos houve uma guerra, a chamada "Guerra do Milênio"; nas nossas aulas de história antiga aprendemos um pouco sobre o que aconteceu.
    Tudo começou com pequenos conflitos. Dizem que nosso planeta tinha mais de 200 países, nem consigo imaginar como seria isso, e que até havia vários dialetos e idiomas diferentes, formas diferentes de ver o mundo, "crenças", culturas, e justamente por causa dessas diferenças esses conflitos se tornaram pequenas guerras civis.
    Com o passar dos anos, as grandes potências, vendo os países de onde eles tiravam seu sustento se aniquilando em infindáveis conflitos, intercederam, imaginando que poderiam acabar com as guerras, mas não imaginaram que o que conseguiriam era piorar tudo.
    Cada pequena cultura local proclamou sua independência, e o número de países dobrou, desestruturados, desestabilizados, e as grandes potências decidiram conquistá-los, tomar para si suas terras e incluí-los sob seus domínios, controlá-los para amainar a situação.
    Ganância. Tomados pelo desejo de possuir cada vez mais, e de vencer seus oponentes na conquista de novas terras, não tardou um conflito de proporções mundiais tomou conta da Terra.
    As três potências se tornaram uma, ninguém sabe ao certo qual delas dominou as demais, mas em 2019, após 2 anos de conflitos mundiais, passaram a se chamar "Império Russo Oriental", e possuíam grande parte dos territórios habitados.
    Há pouco que digam sobre o que aconteceu entre 2019 e 2021, quando o conflito deixou de ser computado.
    É provável que ainda haja guerra, mas a maioria das pessoas acredita que não exista mais vida humana fora de Apokalum.
    A ilha, anteriormente se chamava Austrália, e foi o único país que não se uniu a guerra, que se manteve neutro e afastado, construindo, ao redor de uma grande extensão de terra, muros muito altos, altos e largos, não como uma proteção, mas como uma forma de prender dentro de seu território seus habitantes, isolando-os do mundo; e em 21 de dezembro de 2021 a ilha foi fechada para o mundo, e desde então nunca mais se abriu.
    Houve expedições para explorar fora dos muros, mas os exploradores nunca mais voltaram e foi declarada a proibição de deixar o perímetro dos muros, dado o risco do mundo desconhecido que havia lá fora.
    Apokalum é auto-suficiente. Produzimos tudo o que precisamos, e usamos energia solar e filtragem de água para não prejudicar o meio ambiente. Reciclamos tudo o que não é biodegradável e nossa tecnologia é muito avançada. Vivemos de forma neutra com relação à Terra, assim como nossos antepassados viveram com relação à guerra.
    Temos gênios. Sim. Gênios. Li a respeito do QI de alguns cientistas importantes dos tempos antigos e supero a maioria deles. Nossa ilha gera gênios, como uma forma de manter nossa raça sempre em processo evolutivo.
    De par em par, seres humanos perfeitos geram outros, com uma combinação genética ainda mais admirável e sem falhas. Quase não há doenças na ilha e as poucas que aparecem são rapidamente suplantadas pela nossa tecnologia em pesquisas biológicas.
    Houve um tempo em que manipulações genéticas eram feitas em laboratório. Os chamados "embriões de tubo de ensaio", manipulados e montados de forma a ressaltarem as melhores qualidades de seus progenitores e levá-las adiante. O projeto falhou. Nossos pesquisadores descobriram que elementos instáveis poderiam adicionar ou remover características dos indivíduos e alterar o efeito final, e claro, que a geração “puramente em laboratório”, como eles a chamavam, tornava esses indivíduos mais suscetíveis à doenças, pois, não conseguiam precisar a evolução dos anticorpos num ambiente estéril.
    Apesar de parecer pouco usual e ultrapassado, a melhor forma de criar uma evolução ascendente era usar os recursos que a natureza nos deu, pois, “não havia nada mais perfeito para gerar uma raça superior do que o próprio corpo humano”, de acordo com meus professores.
    Não sei exatamente como funciona o experimento que gera nossas crianças, ele só é explicado aos que são selecionados e eles assinam um compromisso de nunca revelar o segredo, mas quando atingimos certa idade iniciamos um processo de preparação para gerar um novo ser e quando o par correto é encontrado os dois se mudam para o "Edifício da Vida" e ficam lá por cerca de 3 anos, até a criança completar 2 anos de vida, quando a entregam para a Colônia e voltam para suas vidas normais.
    É tudo muito estranho, principalmente essa ideia de dividir a casa com alguém. E não entendo bem como em 3 anos a criança tem 2, o que será que é feito no outro 1 ano?
    É um mistério que espero um dia descobrir, ou não, talvez eu não queira descobrir.
    A identidade de nossos progenitores é secreta; nunca sabemos qual par nos gerou e isso me intriga, olho diariamente os rostos nas ruas procurando algum traço genético parecido com os que vejo no espelho, procurando o par que me gerou. Acho que nunca saberei e, sem saber o porquê, sei que isso é importante.
    Levanto da cama. Já estou atrasada. Não sei como todos sempre chegam a todos os lugares na hora, como pulam da cama imediatamente ao ouvir o despertador.
    Eu não consigo. Sinto o corpo mole pela manhã, pouco produtivo. É a noite que me sinto ativa, bem quando eu deveria dormir.
    Meu apartamento é pequeno. Tenho um banheiro prático, com chuveiro e pia, uma sala com sofá, mesa e alguns itens de decoração, e um quarto, com uma cama, um guarda roupa e uma cômoda e uma vista bonita para o lado da cidade que é verde, uma área de parque que podemos circular, onde ouço, durante a tarde, crianças brincando e correndo nos seus períodos livres.
    Sinto falta de ser criança, estudava muitas horas por dia, mas a cada duas horas de estudo havia uma de descanso para brincar. Brincar estimula nosso cérebro a crescer. E dormíamos mais. Dormir nos ajuda a gravar o que aprendemos durante o dia. Sinto falta principalmente de dormir. Adoro dormir.
    Hoje tenho 15 anos. Daqui alguns dias farei 16. E não estou nem um pouco ansiosa por esse dia.
    Nunca soube se em outras culturas fazer 16 anos significava uma escolha, ou se era celebrado, ou até se era algo importante. Mas aqui é. Aos 16 anos você se muda. Deixa o apartamento que ocupou dos 12 aos 16 anos, após sair do dormitório coletivo, e vai para outro ponto da cidade, onde você quiser, há muitas vagas disponíveis e devo escolher o lugar que mais combinar comigo. Mas não quero deixar minha janela com risos de criança, elas me fazem lembrar como essa época foi boa. Mudar estipula um prazo. Muitos habitantes, aos 16 anos escolhem o que vão fazer para o restante da vida, como contribuirão para a sociedade, como adultos, mas temos até os 20, eles escolhem cedo para se exibir, mostrar que são maduros. Mas eu não me sinto madura. Sinto que ainda falta algo em mim.
    Já discuti isso com meus orientadores, e eles me disseram que não há nada errado na minha evolução e que esse vazio logo desaparecerá. Será?
    Pego o trem para o laboratório. Chego em menos de 15 minutos. Poderia ter ido de bicicleta, já que é tão perto, mas não gosto de pedalar.
    No laboratório encontro Cris Seine. Ela é bem pálida e tem cabelo loiros, é alta e magra, muito bonita, apesar de beleza aqui ser algo que se mede pelo QI, acho seus traços angulosos, perfeitos. Antigamente os traços físicos eram dominantes no conceito de beleza, acho isso interessante. Se eu desenhasse um robô, teria suas feições.
    Trabalhamos juntas há 4 anos. Na verdade eu passei por outros lugares, mas sempre volto pro laboratório, algo me prende aqui e me inquieta, não sei bem o que.
    - Bom dia, Cris!
    - Bom dia, como vai hoje?
    - Atrasada! - rimos juntas. Gosto da Cris, somo muito próximas. Não tenho bem um nome pra isso, mas certa vez li um termo chamado "amigos" e acredito que nos encaixamos na descrição. Gostamos de passar tempo juntas.
    O “Laboratório de Idéias” é onde os projetos propostos para melhorias da cidade são estudados, e viabilizados. Nós somos responsáveis por encontrar uma forma de tornar isso realidade e passar essa informação para os cientistas centrais, para que eles desenvolvam-nas. Sou boa nisso. Mas sou boa nas outras coisas também. Todos aqui temos várias aptidões. Queria que não tivesse, seria mais fácil escolher um lugar pra ficar, apesar de que acho que ainda escolheria o laboratório. Não consigo esquecer a sensação de que preciso descobrir algo aqui.
    A porta bate e olhamos para trás. Sinto uma contorção no estômago, mas eu tomei café da manhã, não tomei? Que coisa estranha!
    - Bom dia, Cris! Bom dia, Elle!
    - Bom dia, Theo! - respondemos em uníssono e ele sorri, como todos os dias, ao nos ver tão sincronizadas, e sinto aquela contração de novo. Ora, será que nunca vou descobrir o motivo disso? Talvez tenha algo a ver com Theo, ou com sorrisos de garotos. O sorriso da Cris não me deixa assim, mas o dele deixa.
    O dele, de mais ninguém. Que curioso.
    Ele é Theodore York. Nos conhecemos desde que me lembro, mas antes de virmos para o laboratório nunca havíamos trocado mais do que duas palavras. Theo tem quase a mesma idade que eu, poucos meses mais velho, o que significa que ele já fez 16 e já se mudou. Para ele a mudança foi bem vinda, e ele escolheu o laboratório para trabalhar, para evoluir e se tornar um dos criadores. Theodore é brilhante em muitas coisas, mas não se dá muito bem com as pessoas, é muito difícil convencermos ele a fazer qualquer coisa que não seja trabalhar, e eu e Cris tentamos muito.
    As horas passam devagar e trabalhamos em silêncio. Há quem diga que nosso trabalho "é moleza!", já que passamos a maior parte do dia sentados e parados, apenas olhando para a tela do computador, mas isso não é verdade. No final do dia saímos daqui tão cansado que mal consigo chegar ao meu prédio antes de cair no sofá, exausta. Sempre demoro pra dormir, apesar da exaustão, e quando durmo parece que mal fecho os olhos e já está na hora de acordar novamente. Não sei quanto tempo mais aguento isso. Mas a sensação estranha no estômago me intriga e não posso deixar de ir todos os dias para o laboratório e me fazer de objeto para a minha mais íntima pesquisa: o que há de errado comigo?"

    Capitulo 1, espero que tenham gostado!
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    Novayan_

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    Re: [DISTOPIA] Apokalum

    Mensagem por Novayan_ em Qui Jan 22, 2015 1:18 am

    Também escrevo um romance pós-apocalíptico, então talvez eu possa ajuda-la.

    Primeiramente eu acho bem legal a conceitualização do mundo nos primeiros parágrafos, mas pense bem, não seria melhor apresentar essa atmosfera ao longo da narrativa e não logo de uma vez, ainda mais no começo? Corta o mistério, além de ser um pouco irreal. Afinal, quem acorda e olha pela janela o Brasil e lembra de tudo que fomentou a criação desse país?

    Outra coisa, a não ser que você tenha um motivo muito bem acertado do por que situar a personagem com essa idade, eu diria para torna-los mais velhos. A narrativa normalmente envolve sentimentos e angustias que um adolescente raramente sabe lidar. Esse é o problema de um adulto escrever sobre uma criança, as vezes colocamos nossos pensamentos maduros nelas, e isso causa estranheza, crianças dificilmente são algo mais do que crianças. (hoje em dia nem adultos podem se considerar adultos não é?)

    Última coisa, em meu livro pelo menos, tento sempre carrega-lo com o máximo possível de informações plausíveis, grandes romances de ficção se fizeram grandes por que flertam com a realidade e não são de todo "fantasiosos". Quando for criar algum novo conceito se pergunte se aquilo de fato é possível. Por exemplo, 3ª guerra mundial tão próxima da atualidade? Não sou grande estudioso de politica, mas dado ao panorama atual eu tendo a discordar que isso vá acontecer nos próximos anos.
    Ainda mais que um dos grandes blocos do oriente será a Russia. Eu apostaria muito mais na China. E por que a Austrália não participou? Etc...

    Estenda os conceitos, trabalhe mais neles, e apresente-os aos poucos, de forma lógica mas ainda assim surpreendente. Creio que ficará melhor. Continue escrevendo, independente do que for isso jamais será ruim.

    Abraço.

      Data/hora atual: Seg Set 24, 2018 8:20 am