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    primeiro capítulo - Rua sem Saída

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    Little Jack

    Mensagens : 1
    Data de inscrição : 09/01/2015

    primeiro capítulo - Rua sem Saída

    Mensagem por Little Jack em Sex Jan 09, 2015 8:17 pm

    olá! Eis aqui, a muito custo o primeiro capítulo de um romance que eu estou rabiscando há alguns meses chamado "rua sem saída". Já tem cerca de 120 páginas prontas, e, apesar do primeiro capítulo ser deverás inteligível para todo o contexto da história, acho que ficou bom. Sem mais delongas, segue!


    capítulo I - o rito.



    “Você pode ser o que quiser!” eu pensava todo dia, enquanto me levantava e via que sim, eu estava vivo. “Porra nenhuma...” eu respondia prontamente, toda vez, com ainda mais vontade. Tinha ali, dezoito anos recém completados, não com muita coisa pra contar, eu admito, mas um ou outro caso que desperte interesse. Mas, como todos sabem, é nas entrelinhas que se faz a História.
    Calma, me deixa voltar um pouco mais no tempo, pra não confundir as coisas. O sol era forte e pairava sobre as nossas cabeças como uma maldita forma de culpa por estarmos todos ali num rito de passagem inútil, que se tivesse nos ensinado alguma coisa, não era muito, com certeza. Éramos vinte-e-cinto, ou um pouco menos, e estávamos vestidos com as mesmas roupas, as estúpidas túnicas pretas numa cidade tropical, com os olhares idiotas e inocentes, achando ter vivido algo, mas mimados demais para ter consciência do nosso grande cagaço com o mundo. Eu sabia um pouco mais que eles, eu acho. Será? Todos eles sempre acham a mesma coisa, que sabem muito, que sabem demais. Eu olhava para os olhos e não reconhecia suas individualidades, não entendia como eles podiam fazer aquele drama todo: o Araújo fazia uma puta cara de choro, forçando a barra pra fingir que ia sentir saudades da turma, enquanto passou o terceiro ano todo falando como queria sair do colégio e arranjar um trampo qualquer. A Camila estava aos prantos abraçada com a Laís parecendo ter esquecido o fato que elas passaram o ano jogando farpas (quase literalmente) uma da outra e pegando os mesmos caras só de provocação; o Cardoso, carinhosamente apelidado de Chewbacca, nosso professor de Física, parecia estar quase desabando ali no palanque ao lado dos professores, expondo um sorriso cínico de satisfação e aprovação, mas não ficava uma semana sequer sem reclamar a respeito dos alunos ingratos e ignorantes. E eu? Bom, eu havia sempre tentado sentir menos que os outros, sejam coisas boas ou ruins, e havia jurado para mim mesmo que não participaria da porra de festa de formatura. Acontece que quando se tem dois pais chatos e se é filho único, acaba não sobrando muita coisa pra fazer, e eu preferia não discutir muito. Respirei fundo e fechei os olhos, realizando a minha técnica de transe proposital, criando todas as situações possíveis para escapar da única que realmente me irritava: aquela que eu estava agora. Estava imerso em uma das minhas indagações sobre o que todos os formandos estariam fazendo daqui a dez anos quando fui despertado pelo Marcelo, meu melhor amigo.
    “Leandro, você é o próximo cara.”
    “O quê?”
    “Você é o próximo cara, se liga.”
    “Ah, valeu.”

    O Marcelo era um tipo engraçado; ele tinha quase dezenove anos e havia levado bomba uma vez. Levar bomba no colégio já é ruim, mas sê você está no terceiro ano as coisas se tornam um pouco mais complicadas: tem o dinheiro da formatura, a expectativa de faculdade, todas essas coisas. Ele era alto, possuía um cabelo curto e sempre penteado, e um físico mais notável que o de todo o resto da turma. Era um cara legal, mas muito exibido porque pegava todas as meninas. O Marcelo era muito burro, do tipo de sujeito que mesmo se você desse os papéis pra apresentar os trabalhos poderia pôr tudo a perder. Apesar de tudo, os professores haviam ficado desesperados com medo do Marcelo repetir de novo, e pareciam ter feito o possível e o impossível para fazer com que ele estivesse ali, com a bunda naquela cadeira. Os pais também cobravam, mas do colégio. Eles estavam do outro lado da arquibancada, perto dos meus, com um sorriso de ponta a ponta, mais aliviados pelo filho ter conseguido terminar essa empreitada vivo do que propriamente felizes por ele.
    “Daqui a pouco eles vão te chamar e tu tá aí, avoado.”
    Meu nome é Leandro. Eu gostaria de pensar algo que fosse interessante e carismático, uma impactante síntese da minha existência em palavras, mas agora tudo me remete àquela maldita epopeia adolescente: escola, música, aulas de inglês, partidas de futebol, festinhas de quinze anos com birita e mais algumas coisas, todavia sem muita relevância. Apesar de tudo, ainda existia em mim algo que fazia eu me sentir único. Não me leve a mal, não é que como se fosse um tipo orgulho ou qualquer coisa do tipo, era só um sentimento de me sentir diferente das outras pessoas. (acho que todo mundo sente isso de vez em quando) Se era minha individualidade falando ou só mesmo aquele grito adolescente idiota do “quero ser legal”, eu não sabia.
    “Leandro Rocha Menezes” gritava o diretor Gonçalves, um homem velho, vestindo terno cinza aparentemente pesado e usando uma gravata preta afrouxada, posicionado ocasionalmente abaixo de um cartaz gigante onde estava escrito “Parabéns, formandos da turma de 2009”. Ele estava à frente do colégio Manuel de Almeida, em Jacarepaguá, há mais de dez anos, tendo dito por inúmeras vezes que dali só sairia morto.
    Caminhei devagar todo o corredor até o palanque e subi os degraus da escada devagar, galgando cada um deles na esperança de ser tele transportado dali enquanto ainda era tempo, imaginando que (quase) qualquer lugar do planeta terra, ou do meu planeta terra fosse, naquele momento, ser melhor do que aquelas escadas, a interminável ação de degradação moral em troca de um diploma. Era uma troca justa. Olhava para todos os rostos com as diferentes expressões: desde o ridículo orgulho de formatura até as piadas idiotas propícias àquele cenário. Mais uma respirada forte e fui em frente, peguei meu bastão e mostrei o sorriso falso mais bonito daquela noite. E eram muitos, acredite! Senti orgulho de mim por alguns segundos: eu odiava aquilo tudo, mas podia fazê-los acreditar que eu era apenas mais um ali.
    As palmas soaram fortes, seguidas dos assobios e os gritos com as fotos vergonhosas. Fiz questão de descer o mais rápido possível e retornar ao meu lugar, pronto para me deliciar com a tortura dos outros estudantes. Do alto, enquanto eu andava em pé, e eles permaneciam sentados, todo aquele cenário obtuso se decodificava, expunha-se o mecanismo de controle populacional meticuloso, e eu quase poderia sentir as palavras saindo da minha boca, ainda que elas estivessem somente na minha cabeça. “Somos grandes ratos de laboratório. Somos grandes ratos de laboratório. Somos...” bom, esquece. Vida que segue.
    “E aí, como foi?” perguntava enquanto me sentava, procurando no rosto de Marcelo alguma previa da resposta que se seguiria, sem sucesso.
    “Mandou bem, cara. Mandou bem mesmo.” Disse.
    “Valeu cara. Fiquei nervoso.”
    “Eu vi pô... eu vi. Agora já foi, relaxa!”
    Todo o resto seguiu normalmente. As pessoas iam, exibiam seus sorrisos falsos, pegavam aquele canudo idiota e saíam. Os pais, num frenesi próprio, exibiam cintilantes os sorrisos e as máquinas digitais ao alto procurando tirar o maior numero de fotos possíveis enquanto os amigos tentavam falar as piores besteiras dali de baixo. Quando tudo acabou, jogamos os chapéus para o alto e deu-se fim àquela sessão de tortura. Éramos formandos agora, iriamos enfrentar o mundo e ganhar a luta. Iriamos?
    Meus pais estavam extasiados, agora de pé no canto esquerdo da arquibancada, na ala inferior, bem perto do campo, onde estava o palanque. Inflexíveis, não cederam às ameaças convictas de alienação individual ou de desgosto eterno que a formatura causaria em sua prole. Disseram que não se formar no ensino médio era tão ridículo quanto ir a uma festa e não furtar ligeiramente um dos brigadeiros ostensivamente dispostos na mesa do aniversariante. E que eles mandavam, então sim, ia se formar sim. Ponto final.
    “Ai meu filho, você estava tão lindo ali em cima! Sabe que eu prometi que não ia chorar né? E eu tentei, tentei, como tentei. Mas não deu. No segundo em que você colocou os pés naquele palanque ali, eu me derreti igual manteiga. Queria tanto que a tua vó tivesse aqui pra te ver!” “Eu sei mãe, valeu.” “Parabéns, meu filho. Isso é importante, você sabe, não é?” “Eu sei pai.”
    Deixem-me apresentar-lhes meus pais: Márcia e Roberto Menezes. Eram bons algozes, apesar de tudo, não se engane pela primeira impressão tirana. Conheceram-se na Federal do Rio de Janeiro no ano de 1987. Quer dizer, não exatamente. Ela era estudante de letras, e ele de Matemática. Na verdade haviam se conhecido numa festa qualquer no Rio Comprido, quando foram apresentados por um amigo e conversaram a noite inteira, papeando sobre os diversos assuntos que tinham em comum: o ódio contra os preços da cantina, a paixão por ajudar as pessoas e o mesmo show emocionante do AC/DC em Janeiro de 85 (é engraçado imaginar meus pais num show do AC/DC). Continuaram a manter contato e no mês seguinte já estavam namorando, com todos aqueles planos de viagens, pactos de amor e cartas numa época em que ainda se escreviam cartas.
    Terminaram a faculdade e arranjaram um apartamento no Grajau, na Rua Juiz de Fora. Era bem modesto e contava apenas com um quarto com uma cama de casal, um banheiro no final do corredor, uma cozinha e um quarto de serviços no final, mas eles diziam que adoravam. Ela havia começado a dar aulas em alguns colégios após o período de estágio, e ele estava tentando se firmar no mercado desde a graduação. Eu nasci em 91, mais precisamente no mês de Maio, na época em que meu pai começou a ganhar um bom dinheiro e fazer nome nos cursos preparatórios e pré-vestibulares. Quando tinha uns três ou quatro anos nos mudamos para nossa casa em Jacarepaguá, bairro de classe média em que continuávamos a morar até hoje. Na época contava de poucas casas, mas nos últimos anos o numero de moradores aumentara assustadoramente, para a tristeza geral dos motoristas (ou de qualquer um que tenha que se locomover) e felicidade das construtoras. Era uma casa enorme, com um grande quintal, um banco comprido de cimento e um balanço na frente, uma piscina de mármore e um salãozinho na parte de trás. Não havia necessidade de muito espaço, já que éramos poucos, mas parecia ser algo pessoal para eles. Meu pai tinha tido uma infância pobre, tendo passado toda a juventude no Morro da Providência, jogando bola e frequentando as mesmas salas de aula daqueles que posteriormente seriam os chefes do Tráfico no Rio de Janeiro, enquanto minha mãe havia vindo com a família do Nordeste e se instalado, às duras penas, no bairro do Andaraí. Era o mais novo de três filhos e o único que realmente tinha tempo para estudar. Passava as tardes mergulhado nos livros, frequentando assiduamente a Biblioteca Nacional e voltando tarde para casa, mesmo com o dinheiro da passagem contado e deixando de comer durante alguns dias para sobrar alguma coisa no fim de semana. Passava pela angustia da pobreza contrastada a vida desregrada e poderosa do tráfico, um limiar de sensações tênues que decidiam o futuro de pessoas que não tinham futuro. Com muito custo conseguira ser aprovado em primeiro lugar no curso de Matemática, e de repente começou a conquistar as coisas mais importantes de sua vida dali. Ajudou a mãe a comprar uma nova casa fora da favela, no bairro do Meier, e também a todos os irmãos, agora muito orgulhosos do seu caçula.
    O Ford Fiesta sedã dirigia calmamente por toda a Estrada do Rio Grande, atravessando suas ruas quebradas, árvores, os pequenos comércios, suas casas e condomínios classe média enquanto o som do rádio ecoava uníssona uma música qualquer, um samba-enredo desconhecido, desses de escolas-de-samba. Eu olhava da janela o Maciço da Pedra Branca, num limiar de suposições e ideias mirabolantes, suas curvas lindas e sua vegetação, o pico e a casa amarela, relembrando às vezes em que matávamos aula para vagabundear na cachoeira. Não teria mais aquilo.

    Número 1345, num muro grande e verde dentro de um condomínio distinto de classe média, daqueles novos que são realmente bonitos. Era um quintal grande, com pisos de cerâmica em formato de pedras claras. Possuía um canil no canto, além de um pequeno banco comprido e um gramado conservado e protegido por uma cerca escura. As telhas laranjas já estavam escuras devido ao tempo e à incidência de chuvas. A casa era branca, de dois andares e possuía um portão de madeira elétrico que se abria e fechava com a ajuda do controle. Tinham janelas na parte de trás e na lateral, janelas de madeira em formato de vitrôs pivotantes. Na parte de trás tinha um grande quintal com uma churrasqueira, uma pia, uma piscina, um chuveiro e um antigo saco de boxe. No alto, acima da garagem, um pequeno salão fechado que era utilizado para algumas festividades da família. Do lado de dentro, três quartos, uma sala e dois banheiros, além de um escritório informal onde meus pais passavam as tardes corrigindo provas. Ao chegarmos em casa, meu pai deixou o carro do lado de fora e nós saímos devagar, comigo na frente e eles dizendo alguma coisa ao fundo. Marilda, a nossa empregada, abriu a porta.

    “Que horas você pretende sair daqui?” minha mãe perguntou.
    “Umas nove, eu acho. Que você acha?”
    “Nove horas tá bom.” ela gritava pra cozinha, enquanto balançava a bolsa colocando-a no cabideiro. Sentou-se sobre o sofá da sala e disse que iria preparar o almoço, mas ainda demorou alguns segundos até tomar coragem de ir à cozinha.
    Liguei a tevê. Eu não gostava muito de tevê, mas até que passava algumas coisas legais. O que eu curtia mais eram os desenhos e filmes, o resto era bobagem. O pessoal sempre precisava falar mal de alguma coisa: a moda agora eram os programas de televisão. Futebol, Reality shows e outras futilidades eram vistas como alienação e os mais radicais chegavam a te desprezar caso você falasse que curtia algum deles. Eu nunca entendi isso muito bem. Por que as pessoas ligavam tanto para o cu dos outros? Simplesmente não funcionava pra mim.
    Falei que ia deixar pra comer mais tarde e fui pro meu quarto. Eu gostava do meu quarto. Sabia que ele não era totalmente meu, mas tudo aquilo que estava ali dentro tinha uma relação comigo, de alguma maneira: um materialismo bondoso, talvez? Não faria mal a ninguém. Eu colocava as musicas pra tocar no computador e deitava na cama, fechando os olhos e abrindo-os lentamente. Peguei no sono.


    18h18min

    O quarto está apagado quase que totalmente, exceto pelas pequenas luzes dos eletrodomésticos que piscam em verde ou azul ou vermelho e o refletor do lado de fora. Acabei de acordar com o despertador, mas a sonolência ainda permanece, aquele estado de transe entre despertar e se manter dormindo, no qual não se sabe em qual das duas você está ao certo. Deito a cabeça para o lado, tento dobrar o travesseiro embaixo da cabeça, mas isso acaba me incomodando. Me sento devagar sob a cama, fico olhando para o chão durante alguns minutos, grogue. O telefone toca. Era o Marcelo, perguntando se eu estava sozinho e se podia falar.
    “Tô sim, que foi? Vai me pedir em casamento?”
    “Vou sim, claro, filho-da-puta. Se liga só, peguei um camarão de primeira aqui com um brother meu, negócio de qualidade mesmo, não é esses bagulhos vagabundos que tem por aí não. Tôu pensando em levar pra festa de formatura pra gente torrar antes, o que tu acha?” dizia isso num tom explicitamente animado, dava pra sentir a felicidade enquanto falava.
    “Por mim tá tranquilo.”
    “Já é, viadinho, tá marcado então. Um abraço!”

    Sempre que alguém estava sem maconha, a gente ligava para o Marcelo e ele arranjava pra nós, moleza. Isso porque era o único que tinha coragem de subir o morro para comprar droga regularmente. Ele percorria as favelas e subia tranquilamente para comprar a parada, enquanto nós só tínhamos feito isso algumas vezes. Tinha alguns amigos que plantavam também, uns caras meio doidões que ele havia conhecido por aí. Contava suas jornadas com um pouco de entusiasmo e um excesso de fantasia, descrevendo os traficantes armados com cordões de ouro enormes e os viciados que ficavam por volta do morro mendigando e fazendo o que quer que os viciados fizessem.
    Havia um tempo sobrando. Fui em direção à sala e minha mãe havia deixado um bilhete. “Oi amor, fui fazer o cabelo e a unha. Mamãe já volta! Beijos. A comida está na geladeira.”
    Joguei o bilhete no lixo e fui até a cozinha. Meu pai havia avisado que ia visitar a vovó, e disse que voltaria provavelmente por volta das sete. Já devia estar chegando. Eu estava sozinho e peguei um prato de arroz, bife ao molho madeira e batata frita. Levei ao micro-ondas. A batata estava meio murcha, mas não fazia mal. Saí dali e voltei pro meu quarto, ligando o monitor. Coloquei uma musica – Oceans, Pearl Jam – e desliguei a luz do quarto novamente. A versão era o acústico, e os sons da música pareciam estar conectados à minha mão, que agora se mexia lentamente, fazendo o formato de ondas que iam para todos os lugares, devagar. Eu fechava e abria os olhos e via as mãos mesmo no escuro indo pra cima e para baixo, atravessando os lados e imaginando a música como um roteiro de qualquer coisa que fosse a minha vida.

    Eu ouvia o motor do carro enquanto ele entrava do lado de fora, meu pai havia chegado. Usava uma bermuda cargo clara e chinelos havaianas, além de uma regata azul, com a carteira e as chaves do carro nas mãos. Meu pai sempre visitava minha vó pela manhã nos finais de semana, mas naquele dia havia ido à tarde por causa da formatura. Os passos na escada se faziam ouvir enquanto eu abaixava o som da caixa, e a porta se abriu lentamente por trás de mim.
    “Oi.”
    “Ah, oi.”
    “Falei com a sua avó hoje, está tudo bem. Ela te mandou parabéns e disse que vai mandar um presente.”
    “Agradece a ela por mim, por favor.”
    “Agradece você, oras.”
    “Tá bem.”
    “Vou buscar a tua mãe, já volto hein.”
    “Tá certo.”
    “E lava a louça lá na cozinha!” ele disse, gritando da escada.
    “Beleza!”
    Fiquei mais alguns minutos ali, olhando para o teto, enquanto a playlist enveredava vários tipos de música. Desci para lavar a louça. Acabei ligando a tevê novamente e me perdendo em um filme legal que chamara minha atenção: era um cara que nunca havia amado a ninguém de verdade até conhecer uma mulher linda. Eles se apaixonam e ficam três anos juntos, vivendo um amor aparentemente perfeito. Até que certo dia que ele o pega na cama com um amante, um cara loiro com mais dinheiro e músculos que o nosso protagonista. Ela havia o humilhado, o traído não somente com um cara legal, mas com o ideal que ele sempre desejou ser e nunca pode. Entra em depressão, passando por um período hipocondríaco e atordoado. Decide comprar uma arma e passa a praticar tiros, além de fazer pesquisas meticulosas sobre Seriais Killers e outros assassinatos brutais. Um lance meio taxi Driver, talvez não tão justiceiro.
    Rapidamente o homem troca toda a sua antiga vida, a faculdade, os pais e o emprego pela mórbida experiência causada pela vingança e o ódio. Ele nunca tinha se afeiçoado a ninguém, e a rejeição desse amor abrupto e primário transformou tudo aquilo que era bom em algo péssimo. Ele começa a ficar paranoico e trama um plano doentio para ter o coração de sua mulher de volta: ele começa a matar todos aqueles que eram realmente próximos: a irmã mais velha, a melhor amiga, o namorado, o cachorro e os pais. Adiciona em seus crimes requintes de crueldade e os fetiches clássicos dos loucos; os vídeos apimentados dos acontecimentos, algumas fotos de recordação e quiçá uma parte ou outra do corpo da vítima. Envia longas cartas anônimas a ex-namorada e executa cada um dos seus passos com extrema maestria e inteligência.
    Por fim, mesmo com todo o aparato de segurança, nosso herói consegue sequestrar sua musa e leva-la para algum lugar escuro e romântico onde possa colocar em prática todo o seu amor reprimido: ele a tortura durante horas a fio em um delírio absurdo, assassinando-a no final, com o coração delas em mão. Ele o tinha afinal. Era o que importava. Comete suicídio e poucos dias depois a polícia encontra a cena do crime, descobrindo o que podia ser apenas o epílogo de um amor desvairado, que era o nome do filme.
    Assisti ao filme que durou umas duas horas e depois fui para o chuveiro. Tomei um banho demorado e arrumei-me no quarto, de portas fechadas. Gravata frouxa e, nos pés, ao invés dos clássicos sapatos, um par de antigos tênis converse, já gastos, mas ainda utilizáveis. De nada adiantou o protesto da mãe.
    “Você vai vestir isso mesmo?” perguntou, apontando para os sapatos.
    “É... talvez. Sei lá.”
    “O problema é seu, quem vai passar vergonha é você mesmo.”
    “Não. Tem como a gente ir logo, por favor?”
    “O que é que você acha?” perguntou para o meu pai.
    Nada disse. Como todo pai, não ligava muito pra essas coisas. Tomava uma cerveja sentado no sofá assistindo o noticiário, alguma coisa sobre um escândalo recente, talvez. Não deu ouvidos, e sim um gole na Antártica.


    21h32
    A visão da Casa de Festas Costa do Sol me apetecia de lembranças corriqueiras do ensino médio. O torpor em meio às aulas, as caricaturas enigmáticas dos professores ou as meninas durante a aula de educação física. Ficava na Avenida Edson Passos, no Alto da Boa Vista, num ponto especialmente íngreme do local. Chegamos por volta das 22h30min, relativamente cedo, pois minha mãe havia enumerado com detalhes todas as necessidades de evitar o transito fluminense, porém já havia ali alguns convidados na festa. Entregaram o carro ao manobrista e adentraram ao recinto, enquanto eu permaneci do lado de fora durante mais alguns minutos.
    Não tinha certeza de que queria entrar ali, fazer aquilo tudo. Por um instante parecia que as coisas tinham volta: a escola, o futuro, a vida. Não era propriamente depressão ou uma forte tristeza; não, não era isso. Mas, às vezes, as coisas simplesmente pareciam não ter um rumo, um caminho, um sentido. Era um grande vazio, passos no escuro exatamente como aquele que eu dava agora. E de sapatos velhos.

    Fiquei durante alguns segundos ali, digitando uma mensagem para o Marcelo, que me respondeu prontamente dizendo que ia demorar mais alguns minutos. Entrei atrás dele, que ainda estavam em pé, procurando a cadeira numerada. Minha mãe vestia um longo vestido preto, o cabelo escovado e penteado perfeitamente, as unhas pintadas e o batom vermelho reforçando sua pele clara e seu sorriso engraçado. Meu pai usava smoking, a gravata apertada que ele insistia levemente em afrouxa-la, e os óculos pendendo sob seus olhos como se fosse parte do seu corpo.
    “Linda, não é? E muito grande!” – minha mãe disse.
    “Pelo preço tinha que ser mesmo!” – respondeu meu pai.
    De fato, tinha sido realmente caro. Formaturas em geral já são caras, aquela estava ainda além dos limites. Quando estávamos procurando o lugar, todos acabaram optando por aquele exatamente por ser uma “experiência inesquecível.” Para mim tanto fazia.
    “O que você achou Leandro? Você já tinha vindo aqui, não é?”
    “É... pra tirar fotos e conhecer. Mas não estava arrumado como agora. Ficou muito lindo!”
    “A-hã.” Disse meu pai. “Eu quero sentar. Podemos ir pra mesa?”
    “Ok, impaciente!” disse minha mãe, sorrindo-lhe e o tomando pelo braço. Eu fiquei ali por alguns minutos, pressionando o celular na mão direita e batendo levemente o pé parado a porta, observando os alunos que já haviam chegado e seus parentes. Havia ali a Camila, com um vestido preto que deixava a bunda dela ainda mais maravilhosa que o normal, se é que aquilo era possível. Ela estava sentada na mesa com os pais, uma prima e os avós, conversando animadamente.

    Do outro lado do salão tinha o Matheus, um idiota qualquer. O cara era mais amigo do Marcelo, porque eles curtiam essas paradas de academia e musculação. Estava com os pais e já parecia ter tomado algumas, porque contava umas piadas idiotas e parecia ser o único a rir delas.

    Mais na frente, mas ainda do mesmo lado tinha o Murilo. Ele era até simpático, mas às vezes era um porre, meio pé no saco. Tirava notas altas e tal. Eu também acabava sendo um bom aluno, mas ele parecia forçar a barra. O tipo de sujeito que se frustrava se errava em qualquer coisinha. Não entendia isso.
    “Fala aí, cuzão!” gritou-me Marcelo, apertando meu ombro por trás com seus pais ao lado.
    “E aí cara” respondi, perguntando-me como alguém conseguia falar com outra pessoa assim na frente dos pais. “Oi tio, tia...”
    “Oi Leandro” eles responderam – “meus parabéns.”
    “Ah, obrigado.”
    Conversamos abstrações e eles se dirigiram aos meus pais. Apesar de um ano mais velho que eu, Marcelo e eu éramos bons amigos, o único que eu realmente tinha naquele colégio: todos os outros eram conversas breves, um maldito exercício de convivência que eu tinha que fazer. Muita merda.
    “E aí, trouxe o bagulho?”
    “É claro! Vamo lá, cara.”
    “Porra... mas onde?”
    “Relaxa, tem um prédio meio abandonado lá embaixo que é tranquilo, a gente pode fumar lá. O que você acha?”
    “Beleza, vamos nessa então.”
    Descemos toda a rua em direção ao tal prédio, e as luzes dos carros iam contra nós toda santa vez. No caminho, íamos conversando:
    “E agora hein? Acabou porra!”
    “É, aleluia!” – eu disse.
    “Mas eu acho que eu vou sentir saudades. Sei lá.”
    “Você acha?”
    “Claro, porra. Tem muita mulher gata nesse colégio cara. E você, nem um pouco?”
    “Não... não mesmo.”
    “Ah, duvido!” – ele gritou, empurrando-me e rindo. “Tá falando isso da boca pra fora, aposto.”
    “É sério cara. Pra mim é indiferente, apático. Como todo o resto...”
    Havíamos chegado ao prédio.
    “Vem, vamos fumar essa merda logo.”

    O prédio era antigo e cheio de pichações na frente. Ficava em frente a um ponto de ônibus e possuía janelas na frente e nas laterais. Estava todo em frangalhos. Nós ficamos ao lado de uma das janelas, e enquanto Marcelo enrolava o baseado com maestria enquanto eu olhava para fora, observando fixamente uma frase pichada num muro que parecia ter tudo a ver com o momento, cujos dizeres eram “não seja escravo dos seus sonhos!”
    “Aí, onde tu acha que vai estar daqui a 10 anos?” – eu perguntei.
    “Sei lá porra... rico, eu espero.”
    “Claro. Mas como?”
    “Ah, aí não sei...”
    “Sabe, às vezes eu acho que daqui a dez anos não vai haver nada. Às vezes eu acho que as coisas pararam. Sei lá... que nossos pais e avós e bisavós já fizeram tudo... parece que esse é um tempo diferente.”
    “Todos são cara.” – ele me disse – “para de fazer gracinha e acende essa merda aí.”
    “Ok. Um brinde! Ao fim da inquisição mental!”
    Nós rimos e eu acendi. Dei uma longa tragada e fechei os olhos, apertando o baseado contra os meus dedos e lábios.
    O olhar profundo, a fumaça da droga no meu pulmão e o olhar cerrado, avermelhado e confuso, junto com a minha cabeça. Longos transes de consciência, aumento do meu pensamento gritante enquanto minha boca permanecia calada, prendendo tudo ali na cabeça. Eu era maluco e ninguém sabia.
    “Passa esse baseado logo.”
    Ficamos fumando ali por uns 10, talvez 15 minutos. Quando saímos do prédio já estávamos bem chapados e tacamos um pouco de colírios nos olhos pra disfarçar.
    “Vamos logo.” – Marcelo disse entre risos – “acelera o passo aí cara.”
    Voltamos pra casa de festa e já havia mais pessoas lá. Agora boa parte dos alunos estava ali, a música tocava e nossos pais conversavam animadamente na mesa. Perguntaram onde estávamos e dissemos que ficamos lá fora, esperando alguns amigos. Sentia fome, e logo fui em direção a uma das mesas que servia o jantar, degustado com voracidade daquele prato que eu havia montado. Disseram para não bebermos muito, pra segurar a mão.
    Após forrar devidamente o estômago, fomos em direção ao bar tomar um drinque. O Salão era grande e chique, com luzes por todo o lugar, e uma pista de dança central que estava abarrotada de gente
    “Me vê uma dose de uísque aí por favor, brother.” Pedi ao garçom, que apesar do olhar ameaçador, me atendeu com educação. Queria beber muito.
    “Essa que é a parada legal de formatura cara” – Marcelo me disse, rindo – “a gente pode beber pra caralho e ninguém tá nem ai. E ainda é birita boa!”
    “Salvo-conduto de porre” completei.
    O recinto era animado pela excitação dos jovens formandos levemente alcoolizados e embalado de músicas que iam do eletrônico internacional até às canções pop dos anos 80 ou os famosos funks cariocas. A pista de dança em frente ao palco e ao lado da escada havia-se tornado uma espécie de templo, onde as cabeças eram sacudidas e corpos movidos num frenesi único. Eu assistia de fora, tímido demais para dançar, e bêbado de menos para arriscar. Após algum tempo, os discursos entusiasmados de algumas personalidades que se arriscavam a ir até o palco, com o acompanhamento das brincadeiras por todo lado. Marcelo tinha se arranjado com a Camila e eu acabei com a prima dela, mas a larguei sozinha depois de alguns minutos. Fui em direção aos fundos da casa de festa, no andar de cima, numa pequena varanda que dava para o outro lado e continuei bebendo. Gostava de ficar sozinho, não era ruim. Podia conversar comigo, travar meus dilemas de maneira concentrada e me focar no meu mundo, que para ser sincero parecia bem mais interessante do que esse que estava a minha frente. Eu estava me formando. Merda! Não era dia desses que eu fazia os trabalhos de casa com a minha mãe do lado ou brincava ou assistia algum desenho enquanto esperava o almoço ficar pronto com o uniforme? Tomei mais um gole. Agora eu me formava, e eles diziam que significava alguma coisa. Pra mim isso não significava nada, como todo o resto. O mundo ainda era redondo e eu permanecia no mesmo lugar...


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    Aline.Carvalho

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    Re: primeiro capítulo - Rua sem Saída

    Mensagem por Aline.Carvalho em Qua Jan 21, 2015 3:18 pm

    Particularmente eu não gosto muito de diálogos com aspas, acho um pouco americanizado, mas gostei das ideia geral..

    Só um toque, alguns parágrafos estão longos de mais e ficam cansativos de ler, pense neles em folha A5, ficaram parágrafos de folha inteira ou mais...seria legal uma quebra em alguns para melhorar a fluidez.

      Data/hora atual: Dom Ago 19, 2018 3:44 pm